O elefante branco
‘‘Em tempos de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural. Nada deve parecer impossível de mudar’’ (Bertold Brecht).
Albino de Brito Freire
Era uma linda manhã de outono. Na varanda ensolarada, lendo Brecht, eu degustava sofregamente aqueles raios mornos que me inundavam corpo e alma, num gozo celestial. De repente, um ruído no jardim desviou minha atenção da leitura e, levantando o olhar, eu vi, juro que vi em meu jardim um enorme elefante branco comendo, sem a menor cerimônia, meu vermelho botão de rosa que irrompia formoso dentre os espinhos da roseira. Meneando a cabeça, sorri complacente comigo mesmo e me perdoei o delírio, pensando com meus botões. ‘‘Elefante branco não existe; logo não pode comer rosas’’! Prossegui em minha leitura, logo interrompida por um barulho mais forte ainda e ergui os olhos naquela direção. Lá estava - meu Deus! - lá estava o elefante branco devorando minhas roseiras, minhas orquídeas... tudo, enfim, que encontrava pela frente. Aí então, fui categórico, falando para mim mesmo: ‘‘Devo estar louco! Tendo alucinações a esta hora da manhã... Elefante branco não existe, e pronto! E, se não existe, nenhum mal pode fazer a ninguém!’’ E continuei a ler. Logo depois, um estrondo! O elefante branco tragara minhas flores, arrasara meu jardim e acabara de derrubar minha casa... em cima de mim!
É isto mesmo! Estamos perdendo, aos poucos, a capacidade de nos indignarmos! Vemos índios assassinarem friamente empregados de uma fazenda, depois queimarem os cadáveres. Estarrecidos, assistimos na TV a uma cena grotesca e revoltante em que os sem-terra fuzilaram um segurança desarmado, esbofetearam e, com requintes de perversidade, torturaram outro, surpreendidos enquanto dormiam em seu próprio quarto. Pesei que estivessem arrependidos, mas que nada! Disseram os seus líderes que esperavam, agora, que os fazendeiros iriam entender o recado... Cadê a turma dos ‘‘direitos humanos’’? Alguns reféns da embaixada peruana, mesmo depois de sofrer durante mais de cem dias nas mãos dos terroritas, querem agora transformá-los em heróis, morrendo de pena deles, chegando a acusar os militares de terem executado, sem piedade, os pobres diabos. E o caso do sequestro do embaixador norte-americano, ocorrido em 1969? Até hoje, um dos sequestradores não tem permissão para entrar nos Estados Unidos. Nós, no entanto, brasileiros de memória curta, o elegemos deputado. Só que ele quer, agora, simplesmente legalizar o uso da maconha. É tudo tão trivial, tão singelo! Mas, guardem o que estou dizendo: se ele continuar tentando, daqui a pouco nos tornaremos cúmplices dele e vamos então dizer: ‘‘Por que não, companheiro?’’
Fiquei revoltado com a cena captada por uma câmara amadora. Soldados socavam e espancavam covardemente indefesos cidadãos que imploravam piedade. Hoje, os vagabundos estão sendo processados, eu sei... eu sei... porém, tratados com toda consideração e respeito, como manda a Constituição da República e coisa e tal. O que me incomoda é que os canalhas nunca vão ficar sabendo como doem aquelas pancadas nas costas, aqueles infamantes golpes de cassetete na cabeça. Ah! os direitos humanos... dos bandidos! Para as vítimas, um consolo: os criminosos sofrerão os ‘‘rigores’’ da Lei! Escute, aqui, moçada dos direitos humanos! Vocês têm certeza de que a volta da pena do ‘‘talião’’ representaria mesmo um retrocesso?
O pobre índio estava dormindo no lugar errado, na hora errada. Um azarado! A rapaziada sadia, oriunda de berços esplêndidos, sem nada pra fazer, após uma noitada, numa tentativa de preencher o vazio de suas vidas, teve uma idéia luminosa: lançar álcool e atear fogo no bicho, como se fora um sapo, só para vê-lo correr e estrebuchar em meio as chamas. Mas, coitados daqueles meninos! Que fatalidade! Que lamentável engano! Não era um mendigo, como pensavam. Era, desgraçadamente, um índio...
Pois é. Aonde foi parar nossa capacidade de indignação e de revolta?
Cresce o pavor dos cidadãos aterrorizados com o avanço das hostes do anarquismo, da violência e da barbárie institucionalizada. As pessoas se acovardam na indiferença natural e se escondem em suas residências protegidas de grades e de armações metálicas, com medo dos facínoras que estão à solta, atrevidos, petulantes, insolentes!
E nós, pacatos cidadãos, até quando vamos tolerar a truculência dessa corja despudorada, incentivada por uma demagogia barata, um populismo insensato de clérigos piegas, de políticos ávidos de votos, de juízes que perderam o trem da história? Ah! Não tenham dúvidas! Se permanecermos cépticos e inertes, os elefantes brancos marcharão sobre nós, invadirão nossas vidas e nos esmagarão como ratos!
- ALBINO DE BRITO FREIRE é juiz de Direito

mockup