O El NiÀo e o mordomo
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de dezembro de 2002
Claudio Lazzarotto 
O clima sempre foi um grande gerador de mitos. Há milhares de anos, a humanidade acredita que fenômenos meteorológicos são ligados a forças supra-humanas, frequentemente utilizadas de forma disciplinadora e, portanto, respeitadas, adoradas e temidas. Daí surgiram, em todas as nações e culturas, o deus do trovão, o deus da chuva, o deus do vento, etc. A própria Bíblia tem muitos relatos de que Deus teria utilizado fenômenos meteorológicos para punir os maus. Num deles, 40 dias e noites de chuva ininterrupta teriam provocado o dilúvio que expurgou a humanidade.
Porém, tal como acontece nas histórias de detetives, quando sempre há um mordomo para ser acusado, o clima é o culpado pelas mazelas da sociedade, o que em parte até é verdade. Observando-se apenas as consequências, é fácil atribuir a culpa aos fenômenos climáticos, tal como culpa-se o El NiÀo pelas dificuldades sociais que, no momento, passam as pessoas em muitos lugares do planeta. Porém, é preciso lembrar que o atual El NiÀo começou na metade do ano e poderia explicar somente o que está ocorrendo no momento.
O El NiÀo, sozinho, não explica a fortíssima seca registrada no início deste ano na África, que provocou a morte de milhares de pessoas. Tampouco serve de explicação para o déficit de chuvas registrado em Dourados, desde março. Não justificaria também as inundações no Rio Grande do Sul registradas em setembro, quando deveriam ocorrer em janeiro ou fevereiro próximos. E as nevadas precoces que ocorreram em novembro nos Estados Unidos ou a maior enchente dos últimos 500 anos verificada na Europa em meados do ano. Será que o El NiÀo é responsável?
É preciso, portanto, antes de colocar qualquer fenômeno meteorológico no papel do mordomo, verificar qual é a responsabilidade da humanidade nos processos de mudanças climáticas. É preciso não esquecer que, a cada dia, o clima está ficando mais adverso e o fenômeno El NiÀo aparece apenas de vez em quando, enquanto todos os dias as florestas são devastadas, as lavouras são erodidas, os carros continuam poluindo e as indústrias aumentam mais e mais suas emissões de gases na atmosfera. É preciso, portanto, considerar que, além de culpado, o mordomo ainda pode ser inocente ou ter sido mandado.
Ainda sobre o tempo e o clima, antes que sejam esquecidas as dificuldades passadas, é importante que cada cidadão reflita sobre sua participação no processo de mudanças do clima. Ou você acha que são apenas as indústrias, os automóveis e as queimadas que poluem o ambiente e alteram o clima?
CLAUDIO LAZZAROTTO é agrometeorologista da Embrapa Agropecuária Oeste.


