Aproveitando uma momentosa observação do jornalista Walmor Macarini, em recente edição deste jornal, calhou-me expor a um amigo os extravagantes apelos às recentes turbulências na administração municipal, cujo declínio resultou na cassação do prefeito. Apesar dos desvios escandalosos, nada me parece tão anormal numa democracia ainda saindo do caldeirão da ‘‘sopa biótica’’ de nossa evolução social. O importante é que os culpados estão sendo identificados e punidos, ainda que tarde.
Esses barrocos apelos estão sendo usados por alguns candidatos como ‘‘gritos de guerra’’ de salvadores da cidade. De fato, Londrina precisa de correções em sua administração e acréscimos às suas conquistas. Mas, de nenhuma maneira está esfacelada, destruída ou até mesmo caída. Vivi em treze cidades de médio e grande porte, antes de aqui aportar e viver. Londrina é uma cidade moderna, com todas as caraterísticas de vencedora, pujante e organizada. Administradores relapsos também os há nos países desenvolvidos.
Carlos Fuentes, em seu livro ‘‘Myself and Others’’ (1990) nos fala das complicações da renovação, quando ele descreveu o dilema moderno de aceitar a diversidade e mutação do mundo, retendo, ao mesmo tempo, o poder mental da analogia e da unidade, de forma que o mutante mundo não se torne sem sentido. Ele nos diz que ‘‘ser moderno não é uma questão de o passado em favor do novo, mas de monitorar, comparar e recordar valores que criamos, tornando-os modernos, de maneira a não perder o valor do moderno’’.
Muitos entendem como uma máxima abstrata e vulgar, quando ouvem dizer que o ‘‘povo é sábio’’. Certamente, é uma generalização! Porém, quando essa sabedoria está na interpretação coletiva de uma cultura subjacente numa substancial parcela do povo, a máxima é estritamente verdadeira. De fato, culturalmente, um povo é sábio quando ausculta e decide sobre os interesses imediatos de suas vidas.
Quando o povo votar no próximo domingo, penso que não votará contra este ou aquele candidato, mas naquele em que acredita com maior capacidade de acrescentar ao conjunto das coisas que outros já fizeram. Esse objetivo simples de um povo em ascensão precisa ser entendido pelos candidatos. As conquistas do passado – alimentos mais acessíveis, roupas mais populares, moeda estável e habitação para a maioria – são ipso facto assimiladas. É de nossa natureza não sermos motivados pelo que já temos. Acréscimos e novas conquistas é ‘‘o nome do jogo’’.
As campanhas a que tenho assistido estão ‘‘armadas demais’’. São como bombeiros florestais perseguindo um imenso incêndio: quando carregados de instrumentais perfuntórios, não sabem jogar fora as armas para se tornarem mais leves e correrem mais depressa. Morrem queimados. Em geral, candidatos persistem carregados, quando não sabem mais mudar. Apegam-se às armas como a máscara à cara.
Uma distinta definição de tecnologia é que ela consiste de conhecimento das relações de causa e efeito. Todo declínio ou crescimento tem uma ou mais causas, quando as amostras das pesquisas eleitorais são representativas da população. Descobrir as causas de declínio, de estabilidade ou de crescimento, próprio e dos competidores, é tarefa da ‘‘massa crítica’’ de cada candidato, cujos membros devem ser renovados, buscando representatividade.
Uma outra causa de correr o risco de ser apanhado pelo incêndio que foi apagar, é que os bombeiros tendem a manter as próprias armas, porque não sabem livrar-se delas. Pessoas armadas temem fazer substituições. Além disso, o medo de fracassar sem as armas pesadas, leva a um reforço inconsciente delas. Os candidatos se apegam às suas armas pesadas como resultado de uma ignorância pluralística. Não sabem cambiar, mesmo sabendo que mais de 30% dos eleitores são cambiantes.
Mas, o que tem a ver essa estória de ‘‘jogar as armas fora’’ com a cultura municipal? Tudo! Inclusive com o raciocínio de Fuentes. Povo quer ser moderno, porém valoriza mais comparar e recordar valores tangenciais. As armas e as tecnologias o amedrontam, o conhecido desarmado o atrai. O candidato perde menos votos sem exibir tantas armas de ataque. A cultura rejeita, igualmente, a defesa e o ataque. A cultura quer igualdade entre os cidadãos; acredita poder influenciar certos prefeitos e a outros não (cultura individualista); quer um religioso praticante e visível, à guisa de confiança em princípios; quer uma prefeitura com certas flexibilidades (governada de forma predizível); e seus programas devem poder ser monitorados pelas forças internas do município.
Um município tem a cultura que exibe em cada eleição. Ela não é necessariamente boa ou ruim. É a simples expressão da maioria simples. A manifestação de cultura pode apenas ser formada de percepções egoístas. Estas são moldadas pelo conhecido. Mesmo quando dois candidatos são igualmente bons e igualmente armados, ganha o mais conhecido, o mais localista, e o mais contemporâneo com a cultura da maioria. As percepções dessa contemporaneidade e dessas crenças, ninguém pode predizer sem pesquisa de conteúdo político, que ainda não se faz por aqui.
- ALEXANDRE DO ESPÍRITO SANTO, Ph.D., é professor universitário em Londrina, e consultor da Pesquisa Folha

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