O editor é o Senhor da Razão
Paulo José CunhaO ex-secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger só concede entrevista para televisão se for ao vivo. Recusa-se a falar para programas pré-gravados porque não confia nos critérios de edição que, segundo ele, distorcem, adulteram e interferem no conteúdo de sua fala. Se todos os entrevistados agissem da mesma forma, não existiria o telejornalismo como o conhecemos. Mas o fato apenas realça a delicada questão da edição, que retorna ao debate de tempos em tempos porque envolve o mais importante aspecto da atividade jornalística: a ética.
‘‘Notícias do Planalto’’, o livro do jornalista Mário Sérgio Conti, ex-diretor de Redação da revista ‘‘Veja’’, que há alguns meses frequenta a lista dos best-sellers, traz mais uma vez a questão da edição à luz dos refletores ao rememorar a grande polêmica em torno da forma como foi montada para o ‘‘Jornal Nacional’’, da Rede Globo, a matéria que sintetizou o debate realizado dez anos atrás entre Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva às vésperas da eleição presidencial.
O livro e as matérias subsequentes sobre o episódio tentam lançar luzes sobre a responsabilidade pela edição, escandalosamente favorável ao candidato Fernando Collor. O então diretor de telejornais da Globo, Alberico Souza Cruz nega qualquer interveniência; o vice-presidente das Organizações Globo, João Roberto Marinho, desmente que tenha enviado orientação à então diretora-executiva de Jornalismo da Globo, Alice Maria, para mudar a equilibrada edição que Vianey Pinheiro, então diretor regional da Rede Globo em São Paulo, havia feito para o ‘‘Jornal Hoje’’ e que seria repetida no ‘‘JN’’; o então editor de Política da Globo, Ronald Carvalho, assume integralmente a autoria mas não convence, porque é impossível acreditar que nenhum membro do núcleo central de poder da Globo tenha interferido numa edição daquela importância. Na versão em off de um funcionário da Globo, Ronald Carvalho teria afirmado a um editor de imagens, pouco antes de entrar na ilha de edição (a máquina onde se montam as reportagens): ‘‘Prepare-se: vamos ter de tapar o nariz e botar a mão na m...’’
Neste cipoal de versões, é difícil identificar quem fala a verdade e quem ainda hoje tenta proteger alguém. Para nós interessa menos a investigação da autoria e mais um exame, mesmo que ligeiro, deste que se transformou, ao longo dos anos, no grande, talvez no maior ‘‘case’’ de manipulação da edição na história do telejornalismo brasileiro.
Edição é a escolha consciente da fala ou trecho de fala mais representativa do pensamento do(s) entrevistado(s), considerando-se as limitações de tempo impostas pelo veículo. Cabe ao editor realizar a ‘‘escolha consciente’’, levando em conta a importância jornalística, o conteúdo e as consequências que o trecho editado irá causar na audiência.
A justificativa dos vários envolvidos na edição é a de que uma pesquisa da Vox Populi havia apontado Collor vencedor do debate e que, portanto, a edição do ‘‘JN’’ deveria refletir esse quadro. A edição que foi ao ar mostrou Collor durante 3,34 minutos e Lula, apenas 2,22. Além disso, todos os trechos editados exibem Collor no ataque e Lula na defesa.
Não cabe ao editor de um debate político, a priori, estabelecer juízo de valor. Sua missão é realizar uma síntese – a mais abrangente possível – do conteúdo, a fim de oferecer ao telespectador um painel representativo do debate. Foi o que fez Vianey Pinheiro. Não havia, portanto, por que reduzir em 1,12 minuto o tempo destinado a Lula (e olha que um minuto em televisão é uma eternidade!). Nem mostrar Collor sempre no ataque e Lula na defesa, a pretexto de que a Vox Populi apontara vitória de Collor no debate.
O telespectador médio sequer imagina os riscos que corre quando assiste a uma reportagem de TV. Não sabe que, além de conteúdos não-verbais resultantes da própria escolha das falas dos entrevistados, pode estar sendo vítima dos truques.
- PAULO JOSÉ CUNHA é professor de Jornalismo em universidade de Brasília

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