O econômico e o político
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 12 de novembro de 2002
Nivaldo Cordeiro 
Lula afirmou que o problema do Brasil é político e não econômico. Tenho que concordar com ele, mas por motivos bem diferentes do que aqueles que estão na cabeça do presidente eleito.
O problema é político porque: 1- Há uma evidente exorbitância da esfera política sobre o mercado, seja pelo excesso de tributação, seja pelo excesso de regulamentação; 2- Há uma falsa crença de que problemas econômicos podem ser resolvidos pelo ativismo político, o que é rigorosamente falso; 3- Há a falsa convicção em nossas elites de que o poder político deve comandar a economia, estimulando a criação de instituições incompatíveis com o livre mercado; 4- Em decorrência, leis e regulamentos são criados a fim de ''aperfeiçoar'' o mercado. Um exemplo é o famigerado Projeto Fome Zero; 5- A partir desse ponto de vista, todas as decisões buscam agigantar o Estado, em prejuízo das empresas e das pessoas. Estamos vivendo o ápice desse processo.
O problema principal do Brasil é político precisamente porque a esfera política invadiu áreas que não são nem da sua competência e nem do seu escopo, se quisermos construir uma sociedade verdadeiramente livre e democrática.
O que está na cabeça de Lula é precisamente o contrário: ele acredita que existem problemas econômicos, seja pela suposta pouca intervenção estatal, seja porque tudo ainda não está devidamente politizado, no sentido de que decisões dos agentes econômicos (ainda) não estão submetidas, todas elas, aos agentes políticos.
Até as pedras sabem que a ação estatal sempre provoca má alocação de recursos e também má distribuição de renda. A ação estatal na área econômica se resume em penalizar aqueles que são operantes e produtivos - os que de fato geram riqueza - em benefício de sua clientela parasitária, via de regra consumidora improdutiva dos impostos, gerando uma enorme injustiça distributiva, tão bem espelhada nas estatísticas. Muitos trabalham para que poucos se locupletem.
E é aqui que verdadeiramente haverá o confronto entre a realidade dos brasileiros e a fantasia dos novos governantes, recém-eleitos. Eles pensam que poderão resolver os desequilíbrios e distorções praticando mais ação estatal, que é política por definição, quando na verdade a origem dos problemas é precisamente a exorbitância política. Por não compreenderem corretamente a realidade, o processo de tomada de decisão levará a tomadas de posição ainda mais equivocadas. Por isso a crise que estamos vivendo não poderá ser superada, tenderá a se agravar.
O drama é ainda maior porque os novos governantes não terão tempo para desconfiar de suas convicções falsas, tomando decisões dentro de seu horizonte de consciência distorcida. Será um vôo cego no escuro, em busca do abismo profundo.
NIVALDO CORDEIRO é economista e mestre em Administração de Empresas pela FGV-SP


