O eclipse de Brasília
Arlete Salvador
A Marcha dos 100 Mil chegou e passou. O mundo não acabou, o governo não tremeu, os alicerces da República não foram abalados. Nem o mercado financeiro se mexeu. Foi algo como o eclipse solar. Nos dias que antecederam o fenômeno, esperava-se o fim do mundo, a realização das profecias de Nostradamus, a vinda do demo. Velas foram acesas e muita oração foi erguida aos céus. O que se viu no dia do eclipse foi uma manifestação rotineira da natureza.
O que se viu no dia da marcha foi apenas o que era, uma manifestação de protesto. É bem verdade que algumas, dependendo da dimensão e do mau humor dos manifestantes (será que só o mercado financeiro tem direito a ficar mal-humorado?), podem mudar a história. No mínimo, apressá-la ou influir no seu curso. Foi assim com as manifestações de rua contra a ditadura, pela Anistia, pelas eleições presidenciais diretas e pelo impeachment de Fernando Collor.
Todos os atores dessa marcha agiram com a previsibilidade dos astros que se entrelaçam num eclipse. As oposições aproveitaram um momento de baixa popularidade do presidente FHC para colocar o bloco na rua. Alguém esperaria o contrário? Como o próprio nome diz, são grupos de oposição ao governo. Não é a ele que devem apresentar suas propostas, mas aos eleitores, que em 2000 e 2002 decidirão qual rumo seguir.
Às oposições interessa expor eventuais erros e consequências desastrosas da política do governo para se fortalecer eleitoralmente. É do jogo político, como sabem o próprio presidente e o presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães.
O governo fez o que faz todo e qualquer governo. No ano passado, aproveitou-se do que restava de sucesso no Plano Real para ganhar as eleições no primeiro turno. Cabe a mesma pergunta: alguém esperaria o contrário? Talvez uma colher de chá, um gesto de bondade para com a oposição? Nem pensar. O governo fez sua opção sobre quais seriam seus aliados na disputa e no Congresso e, entre eles, não estava nenhum de esquerda. Algumas idéias dessa esquerda até foram colocadas em prática pelo governo, mas ninguém nunca passou recibo disso.
Portanto, o que se viu foi cada lado cumprindo rigorosamente seu papel mais tradicional no jogo político, medindo forças e brigando por espaço. Pode-se gostar ou não dessa partida e até duvidar de que traga algum resultado efetivo para melhorar a vida dos que estão sentados na arquibancada. Mas esse é o jogo em andamento. Inevitável como o eclipse. Só que dá para ver em Brasília.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo

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