O drama pefelista
Segundo os aeronautas, quando um avião entra em zona de turbulência a melhor solução é sair dela o mais rápido possível e seguir adiante. Justificam que, nestes casos, tentar retornar daquele ponto é um risco muito grande que pode levar tudo e todos a uma catástrofe. É o que chamam de point with no return ou seja ponto sem retorno. A decisão tomada pelo PFL em deixar o governo e seguir carreira solo obedece ao manual básico da sobrevivência aérea. Aliás, um dirigente do pefelê nacional foi claro ao afirmar que no dilema entre abater nosso avião em pleno ar ou embarcar num vôo cego, que ninguém sabe onde vai parar, ficamos com a segunda opção.
Para um partido pragmático cujo referencial político sempre foi o poder a qualquer custo, pela primeira vez a emoção venceu a razão. No entanto, nada é descartável neste momento, inclusive o retorno de parte do PFL às raias tucanas, afinal, nos últimos 38 anos, seja na pele da Arena, PDS ou PFL, o partido jamais esteve fora dos governos de plantão. Diante deste quadro, os dirigentes buscaram uma alternativa híbrida: deixam o governo, mas continuam dando sustentação política ao presidente Fernando Henrique. Ou seja, preservam uma relação amistosa para o caso de um reverso nas pretensões da governadora Roseana Sarney.
Qualquer prognóstico neste momento para avaliar quem ganha ou perde é prematuro. Sem dúvida que a governadora maranhense levou um fortíssimo cruzado no fígado e sentiu o golpe. Resta aguardar para ver se ela será capaz de absorver o impacto e reagir, como fazem os bons boxeadores. Sua candidatura nunca passou de um balão de ensaio lançado pela cúpula pefelista a fim de negociar a adesão partidária, na coligação oficial, por um preço bem mais elevado que o atual.
O que os alquimistas não previam é que a fórmula adotada fosse ter uma receptividade tão intensa junto ao eleitorado a ponto de viabilizar eleitoralmente uma candidatura própria. Já a governadora foi mordida pela mosca azul no instante que aceitou levar adiante a empreitada. Roseana não avaliou num primeiro momento o hiato abismal que separa uma candidatura ao governo do Maranhão, onde a máquina partidária e governamental, além dos meios de comunicação, estão há décadas a disposição de seu clã familiar, da corrida à Presidência da República.
O episódio abarcando seu marido, Jorge Murad além dela própria nos escândalos de desvios de recursos da Sudam era apenas um capítulo da crônica da morte anunciada. As acusações do envolvimento de Murad em escândalos com negociatas oficiais datam da época que o sogro, José Sarney, era ocupante do terceiro andar do palácio do Planalto. Como não bastasse, sua reação à conduta do Ministério Público e da Polícia Federal nas apreensões efetuadas no escritório da família, foi típica dos que se sentem inatingíveis pela Justiça.
Como qualquer cidadã, tem todo o direito de questionar a ação sob o aspecto legal, mas jamais cobrar pelo fato de não ter sido comunicada antecipadamente. No momento que o país clama por justiça e moralidade, nada poderia ser mais conveniente e útil a qualquer postulante ao cargo de presidente da República que receber da Justiça um atestado de boa conduta por meio de uma devassa em sua vida pessoal.
A aparente ruptura deve criar um novo quadro político. Algumas questões ficam no ar e seus desdobramentos é que vão ditar os rumos da sucessão presidencial. No caso de uma cisão pefelista, o que parece já ter acontecido, um quinhão do partido pode correr para os braços do PSDB e embarcar na candidatura Serra. Seria o tiro de misericórdia para enterrar definitivamente aventura maranhense. Caso contrário só mesmo uma unidade completa do PFL pode dar à Roseana a esperança de chegar ao segundo turno. Sobreviver às turbulências e torcer para atingir um céu de brigadeiro, são as únicas opções capazes de trazer o partido de volta aos braços do poder. Ou então, esperar o resultado das urnas e aderir ao vencedor no dia seguinte.
René Ruschel é jornalista em Curitiba





