O drama do trigo no Brasil
O setor de trigo no Brasil pode estar à beira de um colapso. A área plantada tende a aumentar, mas poderá faltar sementes para o próximo plantio, que se inicia em março nas maiores regiões. Em 1986, o País esteve próximo da auto-suficiência em trigo, plantando cerca de 3,5 milhões de hectares.
Mas de 1996 em diante, a produção de sementes ficou praticamente estagnada, com retração de plantio por parte dos agricultores e consequente excesso de oferta de sementes. E no ano passado, outros fatores resultaram na diminuição da produção de sementes. O Paraná foi sacrificado pela geada e chuva, e o Rio Grande do Sul também foi sacrificado pela chuva no período de colheita. Os dois Estados são líderes na produção de sementes de trigo e no ano de 2000 responderam sozinhos por 92% da oferta.
Há um incremento na procura de sementes de trigo este ano no Brasil, em parte pelo aumento de 30% no preço do cereal na Argentina, que é o principal fornecedor. Aí se vão as divisas nacionais.
A procura pela semente não é apenas de agricultores que tradicionalmente a plantam, mas também de produtores de milho safrinha, que começam a migrar para o trigo. Isto está ocorrendo pela queda nos preços do milho, depois da supersafra de verão.
Vai faltar semente porque os estoques são suficientes apenas para plantio de 1 milhão de ha, ante uma expectativa de 1,6 milhão de ha para 2001. O Rio Grande do Sul tem capacidade apenas para repetir a área plantada no ano passado.
Por conta das incertezas, face à evidente escassez de semente, ainda não será este o ano que iremos atingir a meta estabelecida pelo Ministério da Agricultura e que é apoiada pelos principais organismos do setor: produzir pelo menos 4,5 milhões de toneladas, que correspondem a 50% dos grãos que o mercado interno consome. Para atingir este índice, será preciso dobrar a área plantada com relação ao ano passado, o que é viável desde que haja planejamento. A semente é um insumo importante e tem de ser preparada um ano antes do plantio.
Porém não é apenas a falta de sementes a responsável pela baixa produção de trigo no Brasil. Se hoje colhemos menos de 30% do que consumimos, isto se deve à ausência de uma política de comercialização. O agricultor vive sob pressão, sem garantias de preço e de venda na época da colheita. É preciso estabelecer mecanismos que assegurem a absorção da safra, abrindo linhas de créditos e financiamento adequados. Aí o negócio do trigo terá condições de produzir não apenas os 50% estabelecidos mas as 9 milhões de toneladas de que precisa, e ainda mais.
Temos produtores qualificados, solo fértil, máquinas e equipamentos modernos e variedades de sementes. Com um política bem dirigida não precisaremos de muito mais para atingir novamente a auto-suficiência em trigo, que poderá ser alcançada de um ano para o outro. Basta que o agricultor readquira a confiança no negócio e nada tenha a temer, como a queda de preços, abaixo do custo de produção, resultante também da competitividade internacional.
Recentemente, a Associação Brasileira de Trigo (Abitrigo) destacou a falta de pesquisa como justificativa para a baixa produção nacional. Não é este o problema, não obstante os organismos de pesquisa tenham cumprido bem seu papel de lançar variedades cada vez mais produtivas e que conferem boa qualidade à farinha nacional. Insistimos que falta uma política de comercialização, o que não é uma atribuição exclusiva do governo mas também das entidades que regem o setor, entre elas a própria Abitrigo.
Para elevar a produção será necessário que os moinhos se comprometam a comprar o trigo brasileiro por valores equivalentes aos pagos para o produto importado, já que em qualidade ambos se igualam. Além disso, os moinhos compram nosso trigo em parcelas, ao longo de meses, forçando o produtor a gastos com armazenamento, dessa forma comprimindo o agricultor e levando-o a vender mais barato para honrar compromissos financeiros imediatos. Ainda pior, os moinhos são seduzidos pelos financiamentos dos fornecedores estrangeiros e deixam o produto nacional como segunda alternativa.
A falta de uma política de compra e venda tem comprimido a produção de trigo, apesar da evolução genética da semente, das técnicas de plantio e colheita, da melhor qualificação do triticultor. E este momento de iminente escassez da semente nos convida a refletir mais uma vez sobre as dificuldades do setor e o compromisso que cada um deve assumir para realizarmos todas as mudanças necessárias para o desenvolvimento do trigo no Brasil.
- YWAO MIYAMOTO, de Londrina, é presidente da Associação Brasileira de Sementes (Abrasem), e vice-presidente da Federación Latino Americana de Associaciones de Semillas (Felas)





