O drama da fome (Editorial)
EditorialO drama da fome
No último número da publicação Perspectivas alimentares mundiais, lançada semana passada em Roma, o organismo da ONU para a Alimentação e Agricultura (FAO) indica que 37 países, a maioria na África, têm problemas alimentares, o que constitui aumento em relação ao ano anterior, quando eram 31 as nações nesta situação. E esta realidade ocorre apesar de a produção mundial de cereais, este ano, estar se elevando a 1,895 bilhão de toneladas, um pouco menos que o recorde alcançado em 1997. Na África, a seca, as inundações e os conflitos civis agravaram a situação de alimentos em várias regiões, principalmente em países como Burundi, Congo (ex-Zaire), Etiópia, Quênia, Somália, Sudão, Uganda e Tanzânia. Na Ásia, a situação de crise persiste na Coréia do Norte, que depende substancialmente da ajuda alimentar. No Iraque, a desnutrição continua sendo problema grave no conjunto do território, apesar de leve melhora produzida em razão do acordo de troca de petróleo por alimentos. Um dado adicional revela o drama da situação em sua plenitude: atualmente, 40 mil pessoas morrem por dia, no mundo, devido à fome.
O mais grave é que este quadro tende a piorar em função do crescimento da população do mundo. Nunca, ao longo da História, houve tanta gente no planeta como agora. E a previsão é a de que este crescimento continue. O desafio imenso é o de aumentar a produção de alimentos para resolver o problema atual da fome e garantir condições e perspectivas para o futuro. A realização esta semana em Brasília da reunião intermediária do Grupo Consultivo sobre Pesquisa Agrícola Internacional terá como tema central precisamente este desafio. Trata-se de buscar meios para que a produção agrícola no mundo mais que duplique nos próximos 20 anos.
Salta aos olhos que, apesar de todos os problemas, o mundo ainda não resolveu a questão da produção de alimentos suficientes para atender às necessidades humanas por uma simples falta de vontade política. O quadro que se observa no Brasil, com a agricultura sendo relegada a plano secundário, embora a própria vocação do País o direcione no caminho de produtor de alimentos, é similar ao que se observa em quase todo o mundo. O campo é relegado, o produtor é desconsiderado. E a resultante disto é a fome de um imenso contingente humano, o que, aparentemente, não preocupa aos que decidem.
Todavia, a situação hoje é de alerta real. A explosão demográfica não é uma ilusão. E os problemas vão se tornar cada vez mais sérios, caso não haja a adoção de medidas objetivas visando mudar toda esta perspectiva. Este Grupo Consultivo sobre a Pesquisa Agrícola Internacional, que tem a participação de 42 países, muitas fundações e dezenas de organizações regionais e internacionais constitui base séria na deflagração desta importante guerra que o mundo deve travar contra a fome e a miséria. No ano passado, o CGIAR investiu 320 milhões de dólares no apoio a 16 centros de pesquisa agrícola internacional. Porém, mais importante até do que o investimento é a percepção que existe ali sobre a vital importância da pesquisa para aumentar a produtividade agrícola, caminho único para resolver este desafio.
O mundo do terceiro milênio enfrenta problemas muito diferentes dos que existiam há 10 séculos. Na verdade, as dificuldades mundiais se agravaram neste último século. Garantir para a população crescente do mundo o acesso ao alimento é o primeiro destes grandes problemas. O modo como se tentará resolver isto definirá o futuro do homem no planeta.





