Apolo Theodoro

Que o Glauber Rocha nos perdoe a brincadeira com o nome do seu filme "O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro" (1969), mas não vem não Dragão, eu já conheço a sua ruindade desde o jogo passado, por isso não dou bola pra você e pra ninguém, eu já sou comprometido, não dou nem Confiança p’resse fogo sergipano que você tem; sai pra lá Dragão, tire esses olhos chamuscados de mim, eu já tenho minha paixão e, só pra provocar, pra começar a alugação, seu fogo, como diria minha mãe, é fogo de palha, queima logo, num soprão, não assusta nem lambari, que dirá meu Tubarão.
E se lembrei da minha mãe, neste momento de decisão, isso tem uma razão: ela era torcedora fanática do Tubarão; se viva fosse, com certeza, dona Severina estaria com os ouvidos grudados no radio, o olhar matreiro, para acompanhar este combate fatal entre o Dragão da ruindade contra o Tubarão guerreiro, como fazia nos anos 60 e 70 do século passado, sempre que tinha jogo do Londrina, aqui, ali ou noutro estado, pois, para ela, jogo do Londrina era sagrado.
Com dificuldade de locomoção – tinha o lado esquerdo do corpo paralisado – uma hora antes da bola rolar ela já estava sentada na varanda do bar, o famoso boteco do Tio Mario, rádio ligado do lado, ouvindo todas as informações sobre o jogo, todos os dados, e comentando com a freguesia tudo o que acontecia no gramado. E não era só isso, durante a semana minha mãe também ouvia os programas esportivos, sintonizava uma ou outra estação, sempre em busca de notícias do Tubarão.
Dona Severina ouvia tudo o que acontecia no Londrina; sabia quem estava machucado e não treinou, quem foi contratado, dispensado ou voltando de contusão, sabia até as futricas que envolvia os boleiros seu time do coração, sabia quem foi visto de madrugada, todo galante, garanhão, enchendo a cara na zona, às vésperas de um jogo importante, uma decisão.
Ela tinha, perdoem o cacófato, a escalação do time na ponta da língua, de cor e salteado, também criticava os treinadores quando escalavam algum jogador que não era do seu agrado, enfim, quando o assunto era o Londrina, era com ela mesmo; os fregueses do bar, quando queriam saber alguma coisa sobre o LEC, fosse um senhor ou um moleque, tudo era relatado, falava o que ouvia e mais um pouco, pois sempre dava a sua opinião sobre o assunto tratado.
Por tudo isso e muito mais, por minha mãe Severina, por essa lembrança afetiva dos primórdios do Londrina, é que eu repito em alto e bom tom: não vem não, Dragão! Você pode ser da beira-mar, do litoral do Nordeste, mas aqui em Londrina, no interior do Brasil, não vem não seu traíra, nosso Tubarão caipira vai te abocanhar seu Dragão cabra da peste.
Pode crer com fé torcedor, não tem escapatória. Pra começar a história nossa a defesa é boa, tem classe, nunca vi tormenta que a abalasse; e tem mais, mano, um meio de campo com Diogo Roque e Germano, até um cara que é de mar joga bem, causa dano no rival. E não é por me gabar, Rafael, com você nesse time é Batata: é gol na certa, é carnaval!
Por isso seu Dragão, não se assanhe, apague esse fogo, pode tirar o cavalo da chuva se pensa em ganhar do Tubarão no Estádio do Café, podes crer, não vai dar pé! E nem adianta se rebelar, dá uma de Zé Mané, fazer sururu, faça isso e chamamos São Jorge, seu algoz, pra te espetar a lança da nossa vitória sobre a ruindade e te devolver lá pra Aracaju. É isso, e que dona Severina, no além, esteja com seu rádio ligado, torcendo pro Tubarão, Amém!

APOLO THEODORO é jornalista em Londrina




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