O dominó argentino
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 22 de outubro de 2001
Rubem Azevedo Lima 
A política, atividade nobre de que é capaz o ser humano preocupado em realizar as aspirações do povo, torna-se no Brasil cada vez mais um jogo de regras feitas ao sabor dos interesses escusos ou de esquecimentos daquele dever. Sob o atual governo, o País fez duas conquistas espantosamente negativas: a pior distribuição de renda em toda a América Latina, com os catastróficos efeitos sociais que disso resultam, e o sistema financeiro mais rendoso do mundo, pelos juros escorchantes que aqui se cobram. Em sete anos, entre outros maus resultados, aumentamos nossas dívidas públicas externa e interna; os desníveis regionais e sociais; a desnacionalização de empresas; o desemprego. Os salários dos civis foram congelados e adiadas certas vantagens prometidas aos militares. Há greves insolúveis nas universidades e na Previdência.
Sobreveio, então, por imprevidência do governo, a crise de energia, o que causou menos produção e ainda mais desemprego. Depois, o terrorismo mundial e a guerra dos EUA ao Afeganistão, engajando em maior ou menor escala cada um dos países integrantes do G-8, julgados os mais ricos do planeta. Para onde vamos, sem recursos do G-8?
O que fazem os responsáveis pelos destinos do Brasil? O governo ignora as greves infindáveis e, para não atender aos grevistas e brasileiros de salários aviltados, alega que nossa economia não se reajusta ao dólar. Mas isso não vale para os concessionários de energia.
Os consumidores ouviram os apelos do governo e pouparam eletricidade. Com isso reduziram os lucros daqueles. A crise de energia é provisória? Dizem que é, mas, se quem a vende não quer ter prejuízo, quem a compra que tenha. Os que não pouparam energia foram multados. Agora, esses e os dedicados poupadores terão de dar mais dinheiro aos concessionários.
E os políticos? Além do papelão de tantos, no reajuste das próprias pensões, outros, segundo um ministro, fazem ''tititi e caraminholas'' na sucessão presidencial. Na verdade, fizeram uma proposta indecente que ofendia a opinião pública e atingia as instituições democráticas. Tudo por ambição ou para destruir os adversários.
Esses merecem o efeito dominó do voto de protesto, com o qual os argentinos varreram, agora, o lixo da vida pública de seu país. Por que os brasileiros não fazem o mesmo? Em urnas eletrônicas. Sem cacarecos virtuais, mas com o prazer - ou o consolo - de detonarem os da vida real que os afligem para elegerem gente melhor.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília


