O dólar-bode - TT Catalão
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quarta-feira, 07 de abril de 1999
TT Catalão 
Era uma vez uma família muito, muito, muito pobre que vivia em um cubículo horrível. O pai, sem a menor chance de mudar para um lugar melhor, decide pedir emprestado um bode fedorento a um amigo.
Para desespero da família, o velho coloca o bode dentro do quartinho e o inferno torna-se insuportável. Depois de três meses infectados pelo bode, em condições deploráveis de higiene e absoluto desconforto, o pai retira o bode do casebre.
Alívio! Maravilha! Estamos salvos! O cubículo passou a ser aceitável. A família percebe que as condições melhoraram. Começaram até a ver que a vida não era tão má assim antes do bode. Que sem o bode reclamavam ingratos. Enfim, a família foi domesticada para a mais perversa forma de submissão: eleva-se uma situação de ruim para o péssimo e depois recua-se para o pior. Como tudo já esteve péssimo, o pior tornou-se ótimo. É cruel.
É perverso por destilar uma cultura de passividade e medo de mudança. Sob ameaça retraem-se as iniciativas de transformação. Acredita-se, como lei, que tudo pode piorar cada dia mais. Logo, seria prudente se acomodar com o ruim, agora. Para evitar o péssimo, depois.
Essa é a lógica astuta do dólar-bode. Pelo desenrolar dos fatos, dá para perceber a hora em que haverá festa quando o dólar chegar a R$ 1,70. Dá para ver a euforia do agora vai tremulando perigosamente na insanidade míope dos que manipulam as circunstâncias sem avaliar consequências estruturais a médio prazo.
Esqueceremos, ou nos farão esquecer, que o salto foi de R$ 1,21 do dia 12 de janeiro para R$ 2,16 no dia 1º de março - o pico da desvalorização. Hoje, ao estar próximo do R$ 1,70 é algo que nos será vendido como vitória. Estaremos em festa para aceitar, conformados, a retirada do dólar-bode que já chegou a ultrapassar dois reais. Sai o bode fedorento e a pocilga vira mansão.
Chegar a R$ 1,70 será até genial, pois desestimula gastos no exterior, dá competitividade às exportações, atrai moedas valorizadas e nos deixa mais próximos da realidade prevista para o Brasil pelos grandes do mundo: Saiba bem qual é o seu lugar e não invente demais. País periférico e emergente não tem vez no clube fechado dos ricos que chegaram lá.
Curioso é que a R$ 1,70 estaremos acima do índice de desvalorização que se esperava quando todos pregavam uma gradual perda de valor do real sob controle. Antes da eleição, lembram?
Assim fica muito difícil construir a tal cidadania quando as pessoas temem lutar pelo melhor, pois estão doutrinadas para aceitar o péssimo como razoável. Apavoradas com a volta do bode no cubículo. Culpadas por reclamarem de barriga cheia. De vento ou promessas vãs.
- TT CATALÃO é jornalista em Brasília.


