O dogma da radicalização
PUBLICAÇÃO
domingo, 21 de fevereiro de 1999
Rubem Azevedo Lima 
Paira hoje sobre o Brasil um clima estranho e cada vez mais irrespirável de radicalismo, que levou, entre outras coisas, à adoção do bloqueio da economia de Minas Gerais, pelo não-pagamento das dívidas do Estado à União. Tal fórmula extrema resultou inútil para os Estados Unidos, que a praticam, há muitos anos, contra Cuba, Iraque e Vietnã, países considerados inimigos da águia americana. No entanto, Minas, pelo fato de seu governador, Itamar Franco, ter o gênio difícil e ser adversário político do presidente Fernando Henrique Cardoso, será inimiga do Brasil?
Nessa linha de tratar os adversários como inimigos - conduta absolutamente imprópria em uma democracia - há o caso de um comentarista de TV que, goebbelianamente, acusa a oposição de sabotar as reformas de FHC. Semelhante argumento, usado pelo general Geisel, no regime militar, ajudou a fechar o Congresso.
Nos últimos cinco anos, porém, a oposição sequer chegou a possuir um quarto da representação congressual, o que nunca lhe permitiu impedir a aprovação de qualquer proposta de interesse do Executivo. A Constituinte de 87/88 baixou de dois terços de votos (66,6%) para três quintos (60% dos votantes) o quórum de reformas constitucionais. A maioria governista, de mais de 75% dos representantes, aprovou tudo o que o governo quis, a começar pelo direito à reeleição. A oposição pôde resistir em poucos assuntos, mas acabou derrotada, como no caso dos cortes das aposentadorias e do aumento de Imposto de Renda dos trabalhadores.
Há quem diga que Minas esteja errada e que os mineiros, satisfeitos, deviam voltar-se contra Itamar, apoiando a política econômica do governo, pois sua dívida fora negociada em boas condições, entre o ex-governador, aliado de FHC, e a União.
As dívidas de São Paulo tiveram melhor tratamento do que as de Minas. Mário Covas, reeleito, a supostamente bem de recursos, prometeu resolver, logo após a reeleição, o problema da violência no Estado. Os índices de violência vão cair, garantiu ele. Mas não caíram. Inventou-se a desculpa de que a violência crescera na mesma proporção do aumento da população paulista, que, na verdade, subira só 2%, contra 10% dos atos de violência. Mas o que aumentou mesmo, no Estado, por falta de recursos para investir, foi o desemprego, hoje de 2 milhões de pessoas.
Após as queixas de Itamar, viu-se que todos os governadores aliados de FHC reeleitos - portanto signatários do acordo de pagamento das dívidas estaduais - estavam em dificuldades. Eles gostariam de renegociar suas dívidas, mas, para não confirmarem a inexequibilidade dos acordos, denunciada por Itamar, silenciaram. Os bancos de dois Estados que receberam ajuda da União, o do Ceará e o da Bahia, quebraram, comprovando a falência da Federação, sob o jugo da política econômica imposta pelo FMI, em nome da competitividade mundial.
Competitividade cada vez menor, dadas as crescentes fusões de grupos multinacionais, cujos objetivos consistem precisamente em eliminar competidores em qualquer parte do mundo. Esse é o dogma da religião do mercado livre, que, com apoio no radicalismo dos novos doutores Goebbels, só pensam em lucro - conforme demonstraram João Paulo II e a CNBB, defensores da moratória - mas nunca no bem-estar dos seres humanos.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília


