A competição mais dura dessas últimas cinco Olimpíadas do século 20, não aconteceram nos gramados, nas quadras, nas pistas nem nas piscinas. Aconteceram fora, entre os deuses do Olimpo e os agentes da mídia e do marketing esportivo.
Sob o comando de Zeus, a equipe das divindades disputou palmo a palmo o espaço do espírito olímpico autêntico. O argumento principal, a idéia-força, era a mesma desde a origem dos jogos, quando, nas primeiras edições gregas, pan-helênicas, assumiam sentido cerimonial religioso: a defesa da paz (durante sua realização, suspendiam-se todas as atividades, inclusive as guerras).
As divindades competiram para provar que o encontro dos povos era a maior mensagem dos jogos; que, num mundo ainda desigual na distribuição das oportunidades, ainda dividido por razões ideológicas, políticas e econômicas, cheio de guerras e guerrilhas, fratricidas, o que deveria ser ressaltado era o símbolo da convivência possível, pacífica, entre desiguais.
Corajosamente, os deuses olimpianos queriam que a bandeira olímpica, dos cinco anéis entrelaçados, com as cores de todas as bandeiras das nações, sobre estas prevalecesse – feito bandeira mundial de uma nação mundial. Disseram que, diante de tal magnitude de propósitos, o fundamental era a celebração da disciplina dos atletas, o processo dos treinamentos, a educação física, mental e moral, a luta pela superação, pelo aperfeiçoamento... Por isso, a competição não deveria ser excludente. Os jogos olímpicos, na essência, nunca trataram do embate entre raças, entre bandeiras, entre ideologias; na verdade, a intenção sempre foi a de acolher os homens de todas as peles, de todos os cantos, de todas as línguas, para que ficassem próximos, se observassem, se cumprimentasse, se beijassem e se abraçassem, e percebessem a real identidade que os une, o quanto são intrinsecamente iguais.
Mas os agentes da mídia e do marketing esportivo não se deram por vencidos. Alegaram que tanto ideal assim não era coisa de jogos terrenos. E já começaram perguntando se os deuses sabiam quem é que pagava a conta. Se sabiam que toda a infra-estrutura, as casas da Vila Olímpica, os refeitórios, as refeições, o transporte, as centrais de apoio jornalístico, o sistema de comunicações, o pessoal administrativo, enfim, que todos os recursos humanos e materiais utilizados no evento custavam dinheiro, muito dinheiro.
Os deuses replicaram que sabiam, sim – afinal, eram deuses. E acrescentaram que a forma não precisaria de tanta majestade, pois o principal era o brilho do conteúdo.
- Conteúdo? - perguntaram os agentes da mídia e do marketing esportivo. E ironizaram dizendo que não foram eles que inventaram a história de usar as competições como propaganda político-ideológica, nem a rivalidade entre os atletas, nem ao abuso do doping na concorrência.
- Também nada fizeram para mudar essas coisas. Antes as estimularam e delas tiraram proveito – irrompeu, tonitroante, Zeus. E os agentes da mídia-marketing, estremecidos, gritaram que tinham contratos com os patrocinadores, e que, de mais a mais, os atletas também se aproveitavam da situação, cuidando de engordar suas contas bancárias, com cachês publicitários e novas cláusulas contratuais de patrocínio.
- Já estamos providenciando punições exemplares – falou Zeus, num raio.
E assim, havia sol em Sydney, mas relâmpagos cortavam os céus. Sempre acontece isso ao final dos Jogos Olímpicos. Parece haver uma guerra interminável, lá em cima, entre símbolos, essências e aparências, entre vícios e virtudes, entre ilusões e sonhos, entre o Olimpo e a Terra. Enquanto isso, nós, os terráqueos, ficamos nos perguntando por que razão temos tanta dificuldade de entender o significado das Olimpíadas. Por que será que colocamos honras nacionais nos pés, mãos, mentes e corações de simples seres humanos? Por que os pressionamos a se tornarem mitos, ídolos, que jamais nos decepcionem? Por que não aceitamos nada menos que a medalha de ouro? Mesmo assim, com tanta industrialização cultural, alguns atletas continuam a rasgar o formal, fazendo emergir a beleza do esforço sincero e honesto de quem fez o melhor que pôde, da saudação fraterna ao outro competidor... Agora, falta aprender a sorrir diante da derrota; falta aprender melhor que o importante, afinal de contas, é competir. Falta compreender que o espírito tem de ser mais olímpico.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba

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