O discurso do silêncio - José Fernando da Silva
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quinta-feira, 01 de outubro de 1998
José Fernando da Silva 
Desconfio dos otimistas. Neste final de século, anos medonhos em que os sonhos foram transferidos para os chips eletrônicos - e só neles sobrevivem - o otimismo recebeu sua última pá de cal. A fantasia do homem hoje está enquadrada num tubo de raios catódicos e as coisas só ganham existência de fato após saírem no Jornal Nacional ou no Fantástico. E uma existência por demais cínica.
Assim, a fome no Nordeste só passou a ser real depois que ganhou o horário nobre. O resultado veio logo. Em maio, o governo FHC despencava como banana madura nas pesquisas. Assustados com as próprias imagens, os magos globais - tão de repente quanto começaram - encerraram o assunto. Afinal, o Brasil precisava saber como estava a gravidez da Xuxa. Por que lembrarmos de nossa miséria?
Com o processo eleitoral, os feiticeiros modernos, travestidos de marqueteiros, misturaram suas poções com asas de morcegos e olho de sapo no caldeirão televisivo para obter aquilo que se faz necessário em todas as eleições: o candidato. Algum tempo depois, gerados numa horta de repolhos, lá estão eles prontos para qualquer paladar.
Neste ponto surge a crise das bolsas no mundo todo. O nosso precioso Real está por um fio. O discurso é simplório: há salvação dentro do inferno, desde que o diabo seja conhecido e tenha trânsito internacional. Os feiticeiros entram em cena novamente e tentam fazer uma poção que transforme seus candidatos neste pobre diabo. Não obstante os esforços destes druidas do final de século, todos falham, pois o criador e a criatura já estão fundidos no Fernando II.
Sou daqueles que sai de casa de guarda-chuva mesmo em dia de sol. E se viajo de avião, lamento não ter um pára-quedas. Já disse que desconfio dos otimistas. E como não desconfiar de alguém que vê a casa desabando, recorre ao FMI, e diz que tudo vai bem?
Assisto ao Jornal Nacional e fico impressionado com a pobreza da cobertura da campanha política. Os feiticeiros globais descobriram que é muito mais fácil ignorar a realidade do que tentar justificá-la. O silêncio não incomoda os poderosos e não faz nascer minhocas na cabeça do povo. Afinal, o Ibope martelou todo dia que FHC já venceu.
Reféns dos marqueteiros, otários que escutam o discurso do silêncio, resta-nos esperar o dia 5 e acordar da letargia provocada por nossa TV. Só para avivar a memória: vamos lembrar o que aconteceu com o Cruzado do Sarney, com o confisco da poupança do Collor, sempre depois das eleições. Penso que para a próxima segunda-feira, os guarda-chuvas e os pára-quedas vão estar um pouco mais caros.
- JOSÉ FERNANDO DA SILVA é jornalista da Folha em Londrina


