Os países são expressões geográficas, os Estados são formas de equilíbrio político e uma Pátria, mais que isso, é um sincronismo de espíritos e de corações, uma comunhão de esperanças. Esta magistral definição de José Ingenieros, em seu belo ensaio sobre a mediocridade humana, nos faz pensar sobre o estágio civilizatório do Brasil, neste momento em que os pré-candidatos a presidente da República começam a expressar seu ideal pátrio a cerca de 115 milhões de eleitores que, em outubro, elegerão o chefe do governo. Quem, entre eles, poderá melhor exprimir o sonho da coletividade? Que propostas serão as mais viáveis para inserir o país no estágio do desenvolvimento social?
As respostas abrangem questões de fundo e forma. No plano de fundo, o que estará ocupando o centro das atenções é um programa de avanços para o país, que implique mudanças sensíveis nos cintos macroeconômico e político e que seja capaz de administrar a equação do crescimento com estabilidade e paz social. Justiça se faça a Fernando Henrique. O país tem uma moeda estável, sendo esta condição básica para aspirar um patamar de desenvolvimento. Graças às qualidades intelectuais do presidente e à visão abrangente dos problemas mundiais, o Brasil não é mais desdenhado na mesa das grandes discussões. Mas a verdade é que os custos sociais para se conseguir o respeito internacional têm sido tão altos que se chega a duvidar se eles efetivamente valeram a pena. O crescimento per capita no ciclo da administração fernandista foi de apenas 1% ao ano e as estatísticas da área de proteção social são vergonhosas.
Ainda no plano de fundo, dentro dos dois Brasis que se distanciam, o do pobre e o dos ricos, expande-se um Estado informal dentro do Estado formal. Trata-se do poder invisível, que reúne contingentes cada vez mais numerosos: bandidos que descobrem formas mais racionais e lucrativas de violência, como os sequestros, que agora já não se restringem às camadas ricas e aos adultos; bandos corruptos, proxenetas da administração pública, que agem nas malhas administrativas federal, estaduais e municipais, intermediando negócios e subvertendo a res publica; e núcleos crescentes de pequenos empresários, muitos deles pessoas de bem, que jogam fichas na sonegação para escapar da voracidade estatal, que abocanha quase 34% do PIB. O Estado informal no Brasil movimenta um PIB que, para muitos, é do tamanho do PIB oficial, hoje em torno de R$ 1,3 trilhão.
Mudar esse quadro significa mexer de maneira contundente nos bastiões e contrafortes da política e da economia. Na área política, a mudança exige eliminar os pólos do fisiologismo e do mandonismo regional, com reformas nos sistemas partidário e de representatividade, que sejam capazes de fortalecer os partidos, dando-lhes densidade programática, e conferindo maior responsabilidade e controle à representação política. Urge mudar a maneira como o país olha para fora e para dentro. O Brasil se assemelha mais a uma empresa, com fluxos de caixa, controlados todo final de dia por Malan, cujos compromissos de receita e despesa, pagamento à banca internacional, ênfase no valor da moeda, exprimem não o espírito valorativo de sua gente mas a identidade mercantilista dos empórios. A sociedade quer sentir no país a sua casa, a Pátria, uma Nação, que é berço de valores, muito mais que lugar de vendas, compras e trocas.
No plano da forma, há de se eleger a verdade como eixo do discurso político. Um candidato é digno, é crível, pelo caráter, pela história, não por cálculo ou técnica de marketing. Ele será avaliado pela natureza de seu coração, pela índole, pela verdade que exprimirá, não por orientações mercadológicas. Há uma lição que ensina: some dez, cem, mil, todos os zeros e você não terá quantidade alguma. Nem positiva nem negativa.
Dito isto, vale fazer um pequeno exercício para colocar os pré-candidatos na moldura de forma e fundo que corresponda aos interesses nacionais. Certamente, entre eles, haverá um que cairá melhor na vestimenta que o Brasil precisa. Uma vestimenta que cubra não apenas o espaço físico do território, mas os sentimentos da Pátria.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista e professor titular da USP e consultor político

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