O direito sagrado dos perdedores é espernear. O conceito é tão válido para o futebol quanto para a política. Aconteceu na Câmara e no Senado uma guerra entre três partidos por duas cadeiras. Um dos grupos seria derrotado. O PFL, que cumpriu com rigor e solenidade a sua marcha da insensatez, perdeu.
Dito assim parece simples. Mas o PFL, antes conhecido como o partido dos profissionais, não está acostumado a derrotas. Integra o governo desde a eleição de Tancredo Neves para a presidência da República. Aliás, a dissidência do PDS, o partido que dava suporte aos governos militares, chamada de Frente Liberal, forneceu preciosos votos para a vitória do avô de Aécio Neves sobre Paulo Maluf.
O Partido da Frente Liberal é uma espécie de chave para compreensão da política brasileira. Onde ele está, está o poder. Na sua essência. E naturalmente todas as benesses e vantagens que envolvem este tipo de circunstância. Sempre foi assim, nas últimas duas décadas. A legenda é composta por políticos que estiveram ao lado dos militares, mas no momento da abertura forçaram um pouco mais a porta. Impediram Maluf e, adiante, concordaram com a convocação da Assembléia Nacional Constituinte.
O governo Collor começou a dar sinais de que iria desabar quando seu líder no Senado, Marco Maciel, abandonou o cargo. Com faro apuradíssimo e capaz de antecipar várias jogadas políticas, o então senador detectou que o barco estava afundando. Pulou fora. Na época, Jorge Bornhausen desdenhou a CPI sobre PC Farias. Disse que não iria dar em nada. Collor perdeu o poder. Durante o breve governo Itamar Franco, o PFL se dividiu: parte integrou a administração e parte ficou do lado de fora. Nada, porém, agressivo. Hugo Napoleão, por exemplo, foi ministro das Comunicações.
No governo Fernando Henrique, o PFL foi aliado da primeira hora. Participou da montagem do governo e, aparentemente, esqueceu do eleitor. Transformou-se numa legenda que sobrevivia graças aos conchavos em Brasília. A recente eleição municipal revelou que o brasileiro queria mais segurança, escola e sobretudo ação eficiente na área social.
O discurso montado sobre os ganhos obtidos pelo Plano Real se esvaiu com o passar do tempo. A reordenação de forças ocorrida no Congresso refletiu a vontade do eleitor. Agora o partido vai ser obrigado a viver mais longe do poder. Distante do cofre e das nomeações. Este tempo passou. E a oportunidade para espernear também vai passar. É bom cair na real.
- ANDRÉ GUSTAVO STUMPF é jornalista em Brasília
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