O direito que temos de não ver
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de maio de 1997
Walmor Maccarini 
Os horrores da vida já se bastam por si sós, não há necessidade que a televisão os introduza em nossos lares. A cena do policial que mata o homem que tem no colo uma criança refém, mostrada à exaustão, repetidas vezes, foi um brutalismo que as emissoras de tevê cometeram contra milhões de indefesos telespectadores.
O realismo da violência cometida pelos homens, em seus desvarios, já desbancou a ficção, mas nós não queremos ver isto! Temos o direito de não querer ver! Mas a tevê não só mostra esse realismo como ufana-se de seu feito.
Não é de hoje que se discute a necessidade de uma regulamentação do que as televisões mostram. Se a palavra é censura, não tenhamos medo de empregá-la. Censura sugere cerceamento da livre manifestação, mas esta violência que nos enfiam goela abaixo, sem aviso prévio, cerceia o nosso direito de não querer ver. O limite entre a liberdade e a licenciosidade é estreito, e faz tempo que a desastrada programação das nossas tevês o ultrapassou, avançando pelas raias da libertinagem.
Televisão deveria ser um instrumento de lazer e de sadia informação.
O que temem os que tanto se horrorizam com as idéias de censura? Temem que, começando por uma pequena censura, acabem censurando mais, e se isso acontecer como irão fazer os partidos políticos com seus edificantes ensinamentos patrióticos nos horários gratuitos de tevê e rádio? Como farão os propagadores da libertinagem pornográfica, das séries que exaltam com forte apelo emocional as uniões homossexuais? Porque isto é uma questão do foro íntimo de cada um. Não é notícia, nós não queremos saber! Como farão aqueles que liberam seus demônios de ira nos programas do mundo-cão policial? Os autores de novelas, sem a liberdade de pregar a luxúria, as ligações ilícitas, o culto a usos e costumes licenciosos, as transgressões de toda ordem?
A violência praticada e a violência divulgada caminham paralelas, apenas protagonizadas por agentes diferentes. O primeiro, passível de punição; o outro ocorrendo solto, impune. O primeiro destroça vidas, violenta, mutila, o segundo corrompe as mentes, induz à prática de mais delitos idênticos ao que divulga. Isto não é uma suposição, mas algo embasado em pesquisa científica.
Não há dúvida de que as cabeças já eventualmente propensas a atitudes violentas, ou não, e sobretudo os adolescentes, ficam estimulados à imitação, diante do que vêem pela tevê, porque o fato assim propagado sugere autenticidade, requinta-se pela magia da tela, sacramenta-se como algo qualificado e aceito, que obteve um registro, um padrão, um reconhecimento.
Há exagero demais na divulgação das notícias violentas. Os donos das redes de tevê já não medem consequências se a meta é manter alta a audiência, caso da Rede Globo; ou mordiscar pontos dela, caso das demais.
Não há dúvida de que uma considerável parcela de pessoas aprecia cenas violentas como a descrita, mas não é justo que os veículos de comunicação de massa se valham disto, quando melhor fora que as desestimulassem, mediante uma mais educativa programação. Mas isto exige trabalho, competência, sobretudo talento. Mais fácil é captar cenas já prontas, como a proporcionada pela destreza do policial que age no minuto preciso, e mata; as adquiridas de cinegrafistas amadores contemplados pela sorte de captar o inusitado, no exato momento em que acontece.
Jornalismo de violência é o mais fácil de fazer, porque não exige muito talento, tanto que até os amadores o praticam, com maestria.
A difusão da violência reativa idéias adormecidas de violência, estimula a agressividade e intensifica a propagação de vibrações negativas, com isto favorecendo a ocorrência de mais negatividades, porque todas essas coisas se identificam, interagindo em cadeia.
A codificação da violência em letra impressa, em fotografia e em gravação de vídeo, e a consequente divulgação, são a recriação perfeita do mesmo ato de violência, com todo o corolário de idênticos danos.
Fazer jornalismo só de notícias boas parecerá, a muitos, algo tão indigesto como água com açúcar, mas com toda certeza a atmosfera mental da humanidade se purificaria muito!
Uma vigorosa ação de censura sobre a programação das tevês se faz, sim, necessária, porque isto é o que todos reclamam, então se é vontade geral da nação, não será coisa ruim!


