Há 53 anos, em 10 de dezembro de 1948, num mundo ainda estupefato com os horrores da Segunda Guerra, a ONU adotou a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Além de defender a igualdade política entre todos os seres humanos, independentemente de cor, sexo, religião e raça, esse memorável conjunto de princípios defende o acesso à plenitude da cidadania. Modernamente, comprar qualquer produto, ler, escrever, estudar, pagar contas, ir ao médico e manter atividades de lazer, gestos aparentemente simples do cotidiano, expressam legítimos direitos humanos: o direito ao trabalho – principal fator de inserção social – à informação, à cultura, à saúde, ao consumo de alimentos, à moradia e, em síntese, ao exercício pleno da cidadania.
Esta reflexão se torna muito pertinente num país onde a conquista da democracia ainda não se traduziu na distribuição mais harmoniosa da renda e na melhoria da qualidade de vida de expressiva parcela populacional. Esta situação pode ser constatada no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH/2000), divulgado recentemente pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), no qual o Brasil ocupa o 74º lugar.
O conceito de ‘‘cidadão’’ não se limita ao verbete expresso nos dicionários (‘‘aquele que mantém uma relação de direitos e deveres com o Estado’’). Alimentar-se, vestir-se e morar adequadamente, ter acesso à cultura e ao ensino e, portanto, ao alcance das leis, são prerrogativas inerentes ao ser humano. Portanto, impõe-se a democratização das oportunidades. O Estado, porém, não tem condições de arcar sozinho com a imensa responsabilidade de cumprir essa tarefa.
Por isso, é necessário que todos se mobilizem em torno da meta de promover a melhoria da qualidade de vida dos excluídos, não por meio do mero paternalismo e da filantropia reconfortante, mas por meio do crescimento econômico, da geração de empregos, inclusive para mão-de-obra não-especializada, da educação, da oferta de assistência médica mais digna e da construção de um país mais próspero e desenvolvido. A sociedade não deve ficar omissa nessa questão, sob a cômoda e anacrônica justificativa de que o social é dever apenas do Estado.
No caso do setor gráfico, essa responsabilidade é um compromisso muito sério, em razão de sua ligação intrínseca com a produção de livros, cadernos, jornais, revistas e todos os materiais impressos que contêm informações. Além disso, a indústria gráfica está diretamente ligada à rotina diária da população, ou seja, ao exercício de todos os direitos inerentes à cidadania na sociedade contemporânea. As embalagens, talões de cheques, cartões de crédito, bulas de remédios, manuais dos automóveis e computadores, notas fiscais e até a moeda nacional constituem-se em produtos da indústria gráfica. É preciso estender o acesso aos direitos expressos nesses produtos a todos os brasileiros.
Por essa razão, a Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf) tem participado de forma crescente de iniciativas voltadas à democratização dos benefícios da economia e à valorização da vida. Desde a criação, em 1995, do Prêmio Direitos Humanos pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, a entidade tem sido sua patrocinadora, contribuindo para estimular os que trabalham, numa vertente realista, concreta e solidária, por um Brasil melhor.
Não foi diferente este ano, quando a Abigraf teve a honra de homenagear a ‘‘Associação Minha Casa, Minha Rua’’, que atende moradores de rua em São Paulo, especialmente aqueles recém-desempregados e que perderam suas casas.
A ação de organizações não-governamentais, das empresas e entidades de classe que já entenderam a extensão de sua responsabilidade cívica e das pessoas que trabalham em benefício do bem comum merece o reconhecimento de toda a sociedade. E nem poderia ser diferente, pois gente e instituições com essa índole e nível de consciência é tudo o que uma Nação precisa para se desenvolver e ser feliz!
- MAX SCHRAPPE é presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf) e do Conselho Regional do Senai-SP. É vice-presidente da Fiesp e da Confederação Latino-americana da Indústria Gráfica (Conlatingraf)

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