O direito à globalização - Miguel Ignatios
O direito à globalização
Miguel Ignatios
A anunciada fusão das duas maiores cervejarias brasileiras, a Brahma e a Antarctica, na AmBev, candidata à primeira transnacional do setor, mostra que a microeconomia reage melhor e mais rapidamente aos desafios propostos pela globalização. Curiosamente, no entanto, o que deveria causar orgulho a qualquer cidadão brasileiro, não apenas pela ousadia de entrar na floresta global como caçador, deixando o tradicional papel de caça, reservado às empresas dos países emergentes, acabou por transformar-se em monótona ladainha contra os supostos riscos que a operação poderá acarretar para mercado e consumidores.
Antes de entrar no mérito de tais receios, habilmente manipulados por concorrentes, que só querem disputar mercados fora de seus países de origem, é bom lembrar que tanto a Brahma como a Antarctica têm tecnologia e capacidade empresarial comprovadas ao longo de quase um século de acirradas disputas pelo exigente paladar do brasileiro. Mais do que isso: são muitos os prêmios de qualidade que ambas colecionam e todos eles conquistados no exterior. Com tais perfis, nada mais natural do que somarem seus esforços para disputar espaço no mercado globalizado.
O Brasil, para nossa felicidade, tem sido ao longo de seus 500 anos de história um dos países mais abertos e tolerantes em relação à presença e influência estrangeiras. Ou seja, temos sido, ao contrário de nossos parceiros comerciais americanos, europeus, nipônicos e asiáticos, menos nacionalistas e xenófobos do que eles. De vez em quando, todavia, essa salutar tolerância transforma-se em xenofilia (simpatia exagerada por coisas estrangeiras).
Exemplos de xenofilia não têm sido raros entre nós. Qualquer empresa que venha de fora para instalar-se no País ou que já esteja aqui e queira ampliar sua presença, tem recebido do governo (BNDES) mais apoio e incentivos do que as similares brasileiras. A propósito, o diretor-superintendente do Grupo Votorantim, Antônio Ermírio de Morais, um dos nossos maiores empreendedores, disse, semanas atrás: Sou totalmente a favor do capital estrangeiro; desde que as empresas de fora tragam recursos de seus países para serem investidos aqui. O ex-presidente da Fiesp e atual deputado federal, Carlos Eduardo Moreira Ferreira, foi mais explícito. Para ele, as empresas estrangeiras têm sido privilegiadas em relação às nacionais.
Mas, voltando à fusão Brahma-Antarctica, não vejo qualquer risco que tal operação possa acarretar prejuízos à concorrência ou aos consumidores. Em primeiro lugar, porque a associação delas na AmBev destina-se ao mercado externo. Além disso, a cerveja é quase uma commodity, ou seja, sua produção e consumo são reguláveis pelo próprio mercado. Por sua vez, o consumidor pode trocar de marca ou até mesmo de bebida a qualquer momento. A cerveja é apenas um produto de consumo e não um serviço público essencial como a telefonia, o fornecimento de água ou de energia elétrica.
Hoje, a presença de empresas brasileiras no exterior é pequena. Os destaques ficam por conta de Odebrecht, Sadia, Embraer, Vale, Gerdau, Perdigão, Weg, Azaléia, Grendene, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, Itaú, Sudameris, Camargo Corrêa, Mendes Júnior, Petrobrás, Banco do Brasil, dentre outras. Tenho certeza que, em alguns anos, muitas outras entrarão para tal grupo, inclusive a AmBev. Esta é a resposta brasileira ao desafio da globalização.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM).





