Ex-ministro da Saúde e do Planejamento, engenheiro pós-graduado em Economia, secretário de Planejamento do governo de São Paulo sob o comando do governador Franco Montoro, deputado constituinte, ex-líder de seu partido na Câmara e senador da República. Esse é o currículo político de José Serra, candidato à Presidência da República pelo PSDB, partido do presidente Fernando Henrique Cardoso. Serra entrou para a vida pública no início da década de 60, quando se elegeu presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE). Com o golpe militar de 1964, auto-exilou-se no Chile. Lá, tornou-se pupilo de FHC. Expor as qualidades de José Serra para presidir o Brasil requer tempo – elas são muitas. Para desgosto dele, porém, não é o único a tê-las.
O senador tucano, ao contrário do que pensa e do que deseja ver escrito com ênfase em todos os lugares, não é detentor do monopólio das virtudes políticas. Lula e Ciro Gomes, para citar dois de seus principais adversários, rivalizam com ele no elenco das ferramentas básicas e necessárias disponíveis para chefes de Estado. Dois defeitos natos de Serra, porém, embaçam o perfil virtuoso do político e contaminam as opiniões que muitos têm dele: a antipatia e o espírito de vingança. Nesse momento, em meio às composições eleitorais, esses defeitos são um problema para o presidenciável do PSDB.
A antipatia, porque é desagregadora por natureza, e Serra nunca se esforçou para vencê-la. Mas isso é bobagem – simpatia é natural ou não a cada criatura. Ele não é simpático, e daí? Já o espírito de vingança, e a certeza de que o cultiva, é, sim, um obstáculo para José Serra. De cima dos palanques e diante dos holofotes de TVs, ele o exercita com singular destreza contra aqueles núcleos da administração FHC que despreza e considera incompetentes. São eles a área de formulação econômica, a Receita Federal, os encarregados de pensar e executar as políticas de segurança pública e o setor de desenvolvimento regional.
Em três meses de pré-campanha, Serra criticou todos. Na terça-feira, tomou uma resposta atravessada e mal-humorada do ministro Pedro Malan. Terá de se acostumar a engolir outros muxoxos e algumas traições. Se fala o que quer – e ele acha que pode fazer isso mesmo sendo o candidato oficial, a quem cabe defender oito anos de gestão –, o tucano ouvirá o que não quer. Essa polêmica interessa à oposição. Se quiser vencer a eleição, Serra terá de aprender a conviver calado com as diferenças ideológicas e intelectuais cultivadas dentro do governo do amigo Fernando Henrique. Ou será incinerado por elas.
LUÍS COSTA PINTO é jornalista em Brasília

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