O diabo solto na rua
Maria Lucia Victor Barbosa
Na segunda-feira desta semana, as luzes das televisões se voltaram para o lado obscuro do crime e focalizaram com sensacionalismo mais uma tragédia ocorrida no Rio de Janeiro. É que naquela tarde que percorria indiferente o azul do céu e do mar, desenrolou-se novamente o espetáculo da selva humana, tantas vezes protagonizado na bela metrópole descrita há tempos por um jornal estrangeiro como ‘‘um balneário decadente onde os pobres morrem de fome e os ricos morrem de medo’’.
Diante do País estarrecido que acompanhava as notícias, e da multidão curiosa que sempre brota instantaneamente do nada das ruas, o inferno urbano, que volta e meia se repete nas dobras ‘‘demoníacas’’ da violência, era a evidência da matéria bruta de que se compõe parte do avesso do homem, e que o torna capaz, a partir de sua personalidade e de determinadas circunstâncias, de descer aos subterrâneos de sua bestialidade.
O inferno ficou no de repente da tarde, dentro do ônibus. Naquele espaço exíguo e quente, um rapaz proclamava ter pacto com o diabo, como se quisesse inconscientemente atribuir a maldade que praticava a forças exteriores, eximindo-se assim de qualquer responsabilidade. Coisa impossível, pois a todo momento estamos escolhendo e pagando por nossos atos na medida em que ‘‘a semeadura é livre mas a colheita é obrigatória’’.
Durante horas a fio o ‘‘endemoninhado’’ sustentou com estardalhaço o terror que só a espécie humana é capaz de infringir, na medida em que é gerada conscientemente e aplicada com requintes de crueldade propositada. Gritando como um possesso, ameaçando os apavorados passageiros, simulando matar a tiros uma moça, torturando outra que arrastava pelos cabelos, o energúmeno que ardia nas chamas de sua danação teve quatro breves horas de glória diante das câmaras e holofotes, antes de morrer e levar consigo a refém inocente.
Ao redor do veículo, a Polícia carioca, com pretensões de Swat em suas roupas pretas, era um bando de atarantados. Uma trágica loucademia de polícia, despreparada psicológica e logisticamente.
Na ação policial foi fácil constatar que falhou o Estado em mais este triste episódio do caos urbano brasileiro, onde cidadãos indefesos vivem escravizados pelo medo, impotentes diante da violência, perdidos na perplexidade de não saber para quem apelar. E diante dessa realidade, vem à mente o pensamento de Thomas Hobbes, que em ‘‘O Leviat㒒 refere-se ao ‘‘estado de natureza’’ no qual a vida é pobre, solitária, grosseira e breve, e o ‘‘homem é o lobo para o homem’’.
Nesta situação não há poder comum (o Estado); e onde não há poder comum não há lei, e onde não há lei, não há injustiça. Só há o que cada um puder tomar, pelo tempo que puder conservar. Daí a necessidade da criação do Estado de onde emanam as leis, sendo o primeiro dever do governante dar segurança aos governados. Para isso, essencialmente, o Leviatã foi criado. Sem ele, os homens se destroem.
No Brasil de leis excessivas e pouco ou mal aplicadas, o ‘‘estado de natureza’’ emerge das brechas da impunidade, não cumprindo pois o Estado brasileiro seu dever fundamental. Em todas as partes desse imenso país falta-nos segurança. Ao mesmo tempo, faltam neste final de século padrões morais de contornos mais precisos. E isto ocorre na medida em que a instituição familiar se desagrega, os descaminhos religiosos se multiplicam, o sentido da educação perde a visão humanista que envolve valores éticos para resvalar nas excessivas especialidades e no pragmatismo desvairado. Vivemos o mundo do ‘‘ter’’ e não do ‘‘ser’’, e isso pode nublar o sentido da vida.
Poderá alguém ainda dizer, que nosso ‘‘estado de natureza’’ decorre da miséria existente no País. Essa causa não pode ser esquecida, porém, não é a única. Mesmo porque, pobreza não pode ser entendida como sinônimo de criminalidade como ficou convencionado. O que há é que o ambiente da miséria fomenta muitas ‘‘tentações’’ que conduzem ao inferno da marginalidade. Mas não há correlação radical entre pobreza e banditismo. Tanto é que os pobres pagam mais pontualmente suas dívidas que os ricos.
Recorde-se que há algum tempo, em São Paulo, um estudante de Medicina, de classe média, entrou no cinema de um shopping de luxo e metralhou os espectadores, matando também gente inocente. Ele estava tão ‘‘endemoninhado’’ quanto o rapaz do ônibus.
Mas se existem causas estruturais geradoras das turbulências sociais a que o cidadão comum assiste estarrecido, e que devem merecer da parte da sociedade e do governo uma análise mais profunda, acompanhada do encaminhamento de soluções que passam essencialmente pelo emprego e pela educação, é preciso lembrar de que a curto prazo urgem medidas que sejam capazes de restabelecer a ordem e a autoridade para impor um basta aos desmandos de todos os tipos que vicejam impunemente.
Entre essas medidas está a aplicação correta da lei e o melhor treinamento, inclusive o psicológico, da Polícia, que precisa ser mais bem paga e mais bem armada. A idéia do senador Antônio Carlos Magalhães de pôr o Exército nas ruas é tão absurda e demagógica quanto suas receitas para acabar com a pobreza. Também a proibição do porte de armas, que o Senado acabou de votar, não vai impedir bandidos de continuarem mais bem armados do que a Polícia. E num país onde se costuma respeitar os direitos humanos dos criminosos e não do cidadão comum, esta legislação vai colaborar no sentido de deixar a população mais indefesa.
De todo modo, no país da tolerância 1.000, urge a exorcização do ‘‘demônio’’ da violência. Ele está solto no meio da rua e é intolerável.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
E-mail: [email protected]

mockup