O DIA SEGUINTE - Prejuízos da ressaca vão além da dor de cabeça
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Érika Gonçalves<BR>Reportagem Local 
Aumenta risco de envolvimento em acidentes de trabalho
Beber mais não ameniza os efeitos do abuso de álcool
A noite foi boa, festa animada, bebida gelada e companhia interessante. Mas basta dormir para tudo isso se transformar. Se você bebeu demais, a chance é grande de acordar com pelo menos um dos sintomas: dor de cabeça, náuseas, problemas de concentração, boca seca, tontura, desconforto gastrointestinal, cansaço, tremores, falta de apetite, sudorese, sonolência, ansiedade e irritabilidade. É a ressaca.
Com o Carnaval começando, o consumo de bebida aumenta e muitos são os que vão vivenciar pelo menos um dia os efeitos do excesso de álcool. As dores de cabeça resultantes do abuso, no entanto, não afetam apenas aquele que bebeu. De acordo com o psiquiatra e especialista em dependência química Arthur Guerra de Andrade, a sociedade como um todo é afetada pelos efeitos nocivos do álcool. Presidente Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), ele aborda as consequências econômicas e sociais do uso abusivo das bebidas alcóolicas e revela o que é mito e o que é verdade a respeito da temida ressaca.
Quais são os problemas que a ressaca traz?
A ressaca tem dois componentes principais. Um é o componente subjetivo, que cada pessoa, cada organismo sente de um jeito. Além desse efeito subjetivo no corpo de cada pessoa, também existe um alto custo econômico. Porque a pessoa que bebeu a mais não vai trabalhar no dia seguinte. Isso gera um custo para a empresa, para a economia.
Ou a pessoa vai trabalhar, mas como está de ressaca, fica com um rendimento profissional ruim, tem um baixo desempenho. Além disso, quem está com ressaca aumenta muito o risco de se envolver em um acidente de trabalho. São efeitos econômicos e muitas vezes nós não estamos atentos porque achamos que o problema da ressaca é mais subjetivo, mais de cada pessoa. Não, é um problema importante também para a saúde pública.
O senhor tem os números de quantas pessoas costumam sofrer desse problema ou de quanto as empresas perdem?
Nós temos apenas um artigo publicado no fim do ano passado, de uma pesquisa americana, que fez um estudo com 2.805 trabalhadores, mostrando que 15% eram afetados pela ressaca. Desses 15%, 9% iam trabalhar mesmo com ressaca, ou seja, 6% não iam para o trabalho. E ainda 2% deles trabalhavam sob efeito do álcool, o que é perigosíssimo, porque a pessoa pode ter um acidente de trabalho. Ainda desses 2.805 trabalhadores, quase 2% beberam antes de trabalhar e 7% beberam durante o horário de trabalho. São números importantes para nós associarmos o uso do álcool com o trabalho e isso deve ser evitado a todo custo.
No Brasil os números devem ser parecidos?
Na verdade nós não temos esses números no Brasil ainda. Existem estudos sendo feitos, mas não de forma tão aprofundada. Tudo leva a crer que os números aqui devem ser um pouco maiores. Não há porque os números serem menores, visto que muitas políticas de consumo de álcool ainda estão em graus diferentes do que o consumo de álcool dos Estados Unidos, por exemplo.
Existe uma estimativa de quanto é gasto com uma pessoa que vai para o hospital com ressaca?
Em geral, as pessoas não vão para o hospital por ter ressaca. Esse é o ponto mais importante. A ressaca é quando o corpo demonstra o estado de cansaço por causa do uso forte de álcool. A pessoa bebe a mais, com uma frequência maior e aí vai precisar do fígado para quebrar o álcool. Esse não é um quadro que, em geral, as pessoas precisem ir para o hospital. É algo que por si só, de forma natural, se resolve.
Existe cura para a ressaca?
Infelizmente não há nada efetivo do ponto de vista médico, científico, que cure a ressaca. Não há nenhum medicamento, nenhuma ação como tomar banho gelado, fazer exercícios, tomar café forte, tomar uma colher de azeite antes de beber, nada disso adianta.
Nem o remédio que recomendam ''um antes e um depois''?
Do ponto de vista médico, não há nenhuma base científica para que a gente possa falar que esse remédio cura a ressaca. Eu respeito a questão do medicamento, mas cientificamente falando, não há nada. Por quê? Porque não há um remédio que vá agir nas terminações nervosas e vá promover uma melhora daqueles sintomas. O que cura a ressaca então? É a pessoa que bebeu a mais ter paciência e esperar o álcool ser metabolizado. Somente com o tempo a pessoa vai ficar melhor.
E isso leva quanto tempo?
Varia de pessoa para pessoa, varia de acordo com o quanto ela bebeu, varia em relação ao peso que essa pessoa tem. Mas, em geral, com oito horas no máximo esse quadro já melhora bastante. Só que a pessoa não pode beber de novo. Se ela beber álcool, volta o quadro. Algumas pessoas acham que para curar a ressaca basta beber mais, beber em cima. Não é verdade, a pessoa tem que ficar sem beber porque o álcool provocou um efeito fortíssimo em seu metabolismo.
O que é beber demais? Depende do organismo? Varia com o teor alcoólico da bebida?
Cada corpo reage de uma forma. O que a gente sabe é que quanto menos peso a pessoa tiver, mais facilmente ela pode ficar embriagada. Depois da embriaguez pode ter a ressaca. Além disso existe um outro fenômeno chamado tolerância, o corpo da pessoa se acostuma a receber doses crescentes de bebidas alcoólicas, ele vai precisando de mais doses de álcool para ter o mesmo efeito.
Existe um padrão preocupante chamado ''binge'', que é quando o homem bebe cinco doses ou mais e quando uma mulher bebe quatro doses ou mais, no prazo de mais ou menos duas horas (Estudos relacionam esse padrão a graves consequências, como acidentes de trânsito).
Uma dose pode ser uma lata de cerveja ou um copo de chope. Ou uma taça de vinho, ou uma dose de uísque, de cachaça ou de vodca. Tanto faz a bebida. Os volumes são diferentes porque os teores alcoólicos também são diferentes. A pessoa precisa beber uma quantidade maior de cerveja - uma lata tem 365 ml ou um copo de chope que tem 300 ml - porque o teor alcoólico da cerveja é de quatro graus. Já o vinho, ela não precisa beber 300 ml, ela bebe 120 ml, o teor alcoólico é de 13, 14 graus. O efeito de uma lata cerveja é idêntico ao de um copo de vinho, que é o mesmo efeito de uma dose de uísque, que é 40 ml e teor alcoólico é 40 graus. Um dose de uísque é igual a uma taça de vinho que é igual a uma lata de cerveja, é tudo álcool do mesmo jeito.
Intercalar água ou refrigerante com a bebida, resolve?
Tanto faz uma dose pura de uísque em um copo pequeno quanto uma dose em um copo maior e com gelo. É uísque da mesma forma, pode ficar mais diluído, mas é metabolizado do mesmo jeito.


