O dia mais triste do ano
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 11 de agosto de 1997
Abraham Shapiro 
Os judeus de todo o mundo terminam, nesta terça-feira, um ciclo de três semanas que culmina com o dia denominado 9 de Av de seu calendário.
Esta data, marcada por várias tragédias ao longo da história particular deste povo, é relembrada de uma maneira bastante peculiar: jejum de um dia inteiro acompanhado de uma profunda introspecção voltada à dor da ausência daquele que foi o centro das atenções espirituais do Povo da Bíblia: o Templo de Jerusalém.
Através dos fatos históricos ocorridos nesta data - e que envolvem toda a nação - tenta-se chegar, por meio de uma análise pessoal, à compreensão mais nítida de qual o verdadeiro papel de cada um está desempenhando neste momento para que exista, efetivamente, a melhoria e aperfeiçoamento do ambiente em que vive.
Para o maior conhecimento das tantas pessoas que se simpatizam com o Povo Judeu, tomamos a liberdade de fazer um breve relato histórico sobre os acontecimentos que marcam a data de hoje.
Inicialmente, quando o povo hebreu vagava pelo deserto após a saída do Egito, exatamente dois anos após a passagem a pés enxutos no mar Vermelho, Moisés determinou que 12 soldados de seu exército adentrassem à terra de Canaã para observar o que lá havia de mais pitoresco e outros detalhes de cunho militar. Ao retornarem desta jornada, dez deles se colocaram a difamar o território com observações exageradas e incontidas que mais tinham de interpretações pessoais do que da realidade que observaram. Ao ouvir tais coisas o povo se desesperou imaginando as improváveis possibilidades de vitória nas batalhas que se sucederiam durante a invasão e posse das terras que pertenceram a seus pais.
Apenas dois dos espias - Yehoshúa e Caleb - motivaram o povo a que se centrasse no poder de seu Deus, pois que houvera prometido aquela terra aos seus antepassados, Abraham, Isaac e Jacob, 400 anos antes, e não o deixaria sair derrotado. O povo optou pela opinião dos outros dez e, como consequência desta escolha, Deus os submeteu a mais 38 anos de nomadismo pelo deserto até que todos os que haviam vacilado nesta ocasião tivessem morrido. Daquela geração sobreviveram apenas Yehoshúa e Caleb. Os demais deram lugar a seus filhos e netos que se tornaram os reais conquistadores e primeiros habitantes de Israel como Nação constituída política e socialmente. O incidente dos espiões ocorreu no dia 9 do mês de Av.
Caminhemos um pouco mais adiante na linha da história. O primeiro Templo de Jerusalém, marco histórico de beleza e arte, edificado por aquele que foi chamado o mais sábio dos homens, o rei Salomão, filho de David, foi destruído por Nabucodonosor, rei da Babilônia, o qual submeteu todo o povo judeu a um longo período de exílio. A data em que o Templo de Salomão foi destruído foi o dia 9 do mês de Av.
Séculos depois, o Segundo Templo, edificado sobre as estruturas do primeiro por Ezra e Nehêmia - dois grandes legisladores judeus - foi também destruído pelos romanos. Foi no ano 70 da Era Comum. O dia? 9 do mês de Av.
Na noite que antecede o dia 9 de Av, os judeus de todo o mundo lêem o Pergaminho das Lamentações do Profeta Jeremias. A leitura é feita em sua língua, o hebraico, conservado até os dias de hoje e um dos principais motivos da homogeneidade e consistência do povo judeu.
O objetivo desta cerimônia é que se promova uma reflexão sincera sobre o modo de vida de cada um, de forma a que se dê um passo a mais na direção do aperfeiçoamento pessoal. A meta maior é o crescimento da qualidade de vida da comunidade como um todo. Nenhum bem deve permanecer no âmbito pessoal. Via de regra, o bem que cada um alcança precisa ser partilhado pelos mais próximos e, em seguida, por todo o mundo.
Com duras palavras, a idéia central volta-se à comunidade como um todo. Deve-se sempre se preocupar, em primeiro lugar, consigo mesmo, a fim de que a comunidade cresça com a evolução pessoal de cada um. O mundo é feito por indivíduos que têm sua própria personalidade e caráter. É impossível, portanto, que o mundo seja bom se cada um não desejar alcançar este gol no microcosmo interior.
Vale lembrar, finalmente, o princípio da Ética dos Pais - livro que inicia o Talmud: Se eu não for por mim, quem será por mim? Mas se eu for só por mim, o que sou eu? E se não agora, quando?


