O dia em que o sertão floresceu
O dia em que o sertão floresceu
Não dá para acreditar que ano após ano, governo após governo, desde os idos de 40, venha se falando em seca e fome no Nordeste. Desde os idos de 40, quando passei a me entender como gente, todos os anos as mesmas palavras vêm sendo ditas, mudando somente as bocas que as apregoam.
O que será que vem acontecendo há tanto tempo no Nordeste, ou mais especificamente em algumas regiões, quando outras áreas irrigadas já produzem alimentos, frutas e até parreiras frondosas, colhem-se uvas, que estão produzindo vinho, de ótima qualidade, em ritmo crescente de exportação para a Europa?
O problema da seca no Nordeste é somente culpa do El Ni¤o, que começou a ser conhecido há no máximo dez anos? Lembro ainda em minha juventude e posteriormente já mais maduro do que se dizia de grandes latifundiários daquela região, de fazendas imensas que se prolongavam de Estado para Estado, que não procuravam ou não queriam dar ao solo aquilo que ele precisava, o que era feito em outras regiões do próprio Brasil e principalmente em outras áreas do globo, tão mais áridas que as nossas. Irrigação - água do subsolo - poços artesianos.
O problema que aí está transcende a este, ao interior, e a tantos governos que não podemos transferir a descarregar em cima do atual, como se fosse o único responsável por tudo que está acontecendo e continuará a acontecer, se não for tomada uma providência definitiva.
A fome se mata com alimentos. O solo se perde com o mau trato. Não adianta projetar imagens de animais mortos, por falta de água, e de urubus, plainando na caatinga. Não vamos falar do transporte de água em baldes e caçambas. trazidos sabe-se lá de onde, em caminhões-pipa, se podemos procurar água no subsolo e quem sabe encontrá-la. Por que não se tentar, como tentaram e conseguiram outros países.
Recentemente determinada autoridade foi criticada quando afirmou que o número de desempregados é muito menor do que se afirma. O que existe é má distribuição de mão-de-obra. Somos obrigados a concordar em parte com esta autoridade. Aí estão as indústrias que se transferiram para o Nordeste, em busca de mão-de-obra e a que se oferece, não chega a completar a necessidade, levando em alguns casos, essas empresas, a importá-la do Sul.
O problema da seca, que eu já assisti em preto e branco na televisão, ou no rádio, quando ainda não tínhamos televisão, me faz lembrar um filme e tantas vezes passado, que gasto pelo tempo é remontado em cores com sucesso de bilheteria. Com tantos filmes de sucesso - seca no Nordeste, dá Ibope, é programa de horário nobre.
As imagens que estamos vendo hoje, com certeza mostram homens e mulheres que foram vistos ainda crianças, alguns anos passados e crianças serão vistas já adultas, daqui a outros tantos anos, se nada for feito, como até agora não o foi. Quem viver verá.
Será que não podemos acabar com esse problema utilizando experiências que deram certo em outras regiões do Globo? Será que não há interesse de alguns poucos, em que o Nordeste saia dessa situação de seca e fome e alcance seu lugar dentro do contexto das demais regiões férteis do País?
Não consigo mais ver as imagens que estão sendo mostradas, as mesmas, agora em cores, iguais as que vi 40 ou quem sabe nos 50 anos passados. Começo a me sentir um inútil, culpado do que acontece. Não posso, por essa razão, aceitar que continuem atacando governante atual, que como eu, sempre assistiu a esse problema e agora o vê se repetindo mais uma vez.
Será que não podemos todos juntos, ajudar a resolver esse problema, de uma vez por todas? Será que meu pensamento é um sonho, ou antes de morrer, poderei ainda ver o sertão florescer?
- FRANCISCO ANTONIO FEIJÓ é contabilista e secretário-geral da CNPL - Confederação Nacional das Profissões Liberais





