A eliminação voluntária
e provocada da gravidez é
uma pena de morte decretada
contra inocentes indefesos,
é uma atitude cruel, o poder
do mais forte, uma injustiça,
um homicídio. Não podemos
resolver nossos problemas
humanos com a morte, a
violência e a eliminação da
vida. O liberalismo moral
está propiciando a decadência



  Viva o Dia da Criança e os 25 anos da Pastoral da Criança que foi dada à luz em Florestópolis, uma glória da Igreja e do Paraná. A criança existe porque nasceu. Não foi abortada. Nascituro é o feto, o embrião, o ser humano que vive no seio materno, até o dia do seu nascimento, portanto, trata-se do ser humano que vai nascer, cuja vida começa na fecundação. Que maravilha Senhor sou eu, reza o salmista. Tu me teceste no seio materno, tuas mãos me modelaram quando eu ainda era informe.
  Não há maior tesouro do que a vida. Ela é o bem fundamental e máximo. Em nossos dias, porém está sendo ameaçada e banalizada. As fases mais frágeis são as mais violadas: a fase intra-uterina e a terceira idade. Tramitam no Congresso Nacional muitos projetos que desrespeitam, violam e até eliminam a vida não-nascida, como é o caso das células tronco embrionárias, dos fetos com defeitos cerebrais (anencefálicos), do abortamento em geral.
  Uma mentalidade antivida está sendo inculcada. Temos assim a vida não transmitida, não gerada, não nascida, não cuidada e não consumada. Há quem não quer ter filhos, como também não são poucos os que rejeitam os idosos. Estas e outras razões são suficientes para manifestarmos nosso grito em favor da vida e do nascituro. Temos Frentes Parlamentares, Associações Pró-Vida, o Movimento ‘‘Brasil Sem Aborto’’ e tantas outras iniciativas louváveis, em favor da vida.
  Por iniciativa da CNBB, o dia 8 de outubro é o Dia do Nascituro e a semana que antecede esta data passa a ser a ‘‘semana da vida’’. A vida humana dever ser protegida desde a fecundação, durante a gravidez, no parto, em todas as etapas do processo vital, até seu fim natural. O embrião é humano, carrega consigo todos os elementos e características da pessoa humana e, portanto, tem direito à sua integridade e dignidade. A vida intra-uterina é inocente, frágil, indefesa e por isso precisa de cuidados, carinho e proteção.
  Nosso tempo se caracteriza pela defesa da ecologia dos animais e com razão protesta contra o terrorismo, a violência, a fome, os gastos armamentistas, a exploração de crianças, a cultura de morte. A durabilidade de existência é prolongada e gasta-se fortunas com cirurgias plásticas. Tudo para favorecer a vida. É incoerente, portanto, a postura desta mesma sociedade quando banaliza a vida do embrião e os inícios da vida humana após a fecundação e se pratica o abortamento.
  A eliminação voluntária e provocada da gravidez é uma pena de morte decretada contra inocentes indefesos, é uma atitude cruel, o poder do mais forte, uma injustiça, um homicídio. Não podemos resolver nossos problemas humanos com a morte, a violência e a eliminação da vida. O liberalismo moral está propiciando a decadência. A espiral do prazer alimenta a espiral da violência.
  Não basta, opor-se ao aborto. É preciso educação para o amor, amparo à vida que nasceu, sensibilidade pelas mães, justiça social, apoio aos profissionais de saúde, assistência às gestantes, combate à fome e à miséria. A misericórdia divina perdoa e abraça a todos que caíram, mas esta mesma misericórdia deve ser aplicada para a vida em gestação. As circunstâncias em que se pratica o aborto atenuam a culpa de seus autores; visto que as situações são dramáticas, dolorosas, trágicas. A teologia moral leva em consideração e compreende estas realidades, mas nada justifica o aborto que atenta contra a vida inocente. Trata-se da morte provocada, direta e deliberada. Compreender o pecador não é o mesmo que justificar o pecado. Que ressoe sempre entre nós o lema da Campanha da Fraternidade: ‘‘Escolhe pois a vida’’ (Dt 30, 19).
  A cultura da vida haverá de suplantar a cultura da morte. Celebramos os 40 anos da encíclica Humanae Vitae de 1968. Neste documento, Paulo VI defendeu a paternidade responsável, os métodos naturais de planejamento familiar e a generosidade dos casais na transmissão da vida. ‘‘Não vamos diminuir os comensais à mesa, mas distribuir melhor as iguarias’’. Quem se casa, deve estar aberto à procriação e educação dos filhos.

DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina

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