Na Internet, esse admirável mundo novo onde quantida des incalculáveis de informação e desinformação, de conhecimento e ignorância, de sublimidade e abjeção, enfim, de lixo e luxo humanos que cruzam os modernos territórios livres da comunicação, certas mensagens se destacam pelo conteúdo e pela bela forma com que são apresentadas. Assim surgiu no meu monitor uma dessas mensagens, cujo título era Thanksgiving, ou seja, Ação de Graças. Num dos trechos em inglês que aqui traduzo, pude ler: ''O Dia de Ação de Graças constitui-se num tempo de reflexão. Agora, mais do que nunca, é tempo de agradecer tudo que temos e por todas as pessoas que tocaram nossas vidas''.
Depois do atentado do dia 11 de setembro, essa mensagem me impressionou no sentido de que aquelas palavras não deixaram de traduzir a fibra, a dignidade e o espírito de um povo. E se algum leitor achar que exagero na interpretação, lembro que as comemorações do Dia de Ação de Graças deste ano, nos Estados Unidos, foram das maiores já acontecidas. Na tentativa de entender melhor a mentalidade dos norte-americanos, recordo aqui algumas idéias sobre as quais me detive no meu livro ''América Latina - em Busca do Paraíso Perdido''.
Em 1904-1905, ao escrever ''A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo'', Max Weber observou que os protestantes eram mais bem-sucedidos que os católicos (e os judeus mais do que os protestantes). A explicação de tal fenômeno residia na associação da ética protestante - onde sobressaíam atitudes e valores tais como austeridade, hábitos frugais, trabalho metódico, honestidade, racionalidade - ao conceito calvinista de ''eleição'', ou seja, a evidência da escolha e da bênção de Deus através da prosperidade de alguns dos seus filhos. E como, segundo a vontade de Deus, os homens devem trabalhar mas não cobiçar os frutos do trabalho, esses frutos devem ser constantemente reinvestidos para permitir mais trabalho.
Interessante recordar que as seitas protestantes nos Estados Unidos, com as dos quacres e dos batistas, no século XVII, exigiam dos indivíduos que desejavam pertencer às suas congregações determinadas qualidades morais associadas à sua situação comercial. A partir desses aspectos essas congregações, como afirmou Weber, tornaram-se ''veículos típicos de ascensão social''. Serviam para difundir e manter o ethos econômico burguês e capitalista entre as amplas camadas da classe média (inclusive os agricultores).
Nesta sociedade fundada sobre os princípios da liberdade e da propriedade, onde o agir religioso interferia eticamente no agir econômico, o discurso político refletia, como sempre acontece, a mentalidade social. Em 1861, dirá Lincoln, usando a linguagem do empreendedor: ''A prosperidade é o fruto do trabalho...... O fato de existirem ricos mostra que outros podem enriquecer e é, portanto, um justo encorajamento à diligência e ao espírito de iniciativa''.
Cumpre ainda lembrar que na América do Norte, a partir de um espírito eminentemente liberal, a aspiração geral era a da propriedade. Essa aspiração se consumou na realidade para a grande maioria, a partir da mobilidade social que possibilitava a criação de oportunidades para quase todos.
Pode-se também afirmar que nos norte-americanos o ''individualismo absoluto'' de que falou o sociólogo Wright Mills não impediu o espírito associativo. E numa sociedade onde a liberdade permitiu uma multiplicidade de associações de todos os tipos, incluindo as religiosas, a independência com relação ao governo sempre foi grande. Na verdade prevaleceu a iniciativa particular perante uma autoridade política difusa, à qual competia não o papel de administradora, mas de guardiã da ordem.
Diante dessa realidade, e voltando à mensagem do Dia de Ação de Graças que convida a refletir, relembro o pensamento de Carlos Rangel que coloca a questão da influência positiva dos Estados Unidos para a América Latina, para em seguida ponderar, se não fomos nós, latino-americanos, que não pudemos ou não soubemos aproveitar os efeitos benéficos dessa influência devido a deficiências que são nossas, e que existiam muito antes de nossas relações com os Estados Unidos.


- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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