O dia-a-dia do professor - Maria Lucia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 16 de outubro de 1998
Maria Lucia Victor Barbosa 
A propósito do Dia do Professor, comemorado (ou não comemorado) nesta semana, retomo em parte o que escrevi em 1995 neste mesmo Espaço Aberto, no intuito de refletir sobre o trabalho que venho desempenhando no meu dia-a-dia como educadora. Ao fazer isto, dirijo-me especialmente não só aos professores universitários, no meio dos quais me encontro, mas também aos que se dedicam a ensinar nos graus anteriores à universidade em escolas tanto públicas como particulares. Portanto, através da palavra escrita estarei tentando estabelecer um diálogo mental com os colegas de labuta e de missão, que se encontram espalhados pelo Paraná, este Estado que já deitou raízes profundas na minha mineiridade de Belo Horizonte.
O que quero expressar se resume na minha experiência particular, mas talvez minhas dúvidas e esforços tenham a ver com o universo mais amplo de pessoas que se dedicam a tarefas similares às minhas. Por isso lhes escrevo, como se enviasse uma carta para cada um a fim de trocarmos idéias:
Caros colegas, na minha trajetória como professora tive por obrigação aprender a ser didática. Com isso quero dizer que com o correr do tempo fui percebendo a necessidade de ser objetiva na fala, criteriosa na seleção dos textos a ser apresentados aos alunos, atualizada para poder recriar pensamento a partir do conhecimento já existente. Apesar de meus esforços, aprendi, à medida que ensinava, o quanto é difícil a comunicação entre nós, os humanos. Isto porque a mente de cada estudante tem um grau diferente de evolução. Desse modo, uns gostavam muito das minhas aulas, outros se entediavam mesmo diante de assuntos considerados por mim apaixonantes e, alguns, felizmente poucos, detestavam as explanações que apresentava.
A inquietação que essas dificuldades sempre me provocavam, aquela angústia ao final de um ano de trabalho, oriunda da incerteza sobre o real aproveitamento do curso por parte dos alunos, tinham, porém, um motivo essencial: minha formação ocidental. E essa descoberta fiz ao ler um fabuloso livro, intitulado Catorze Lições de Filosofia Yogue, onde o autor, o Yogue Ramacháraca, afirma:
No Oriente, o mestre não se dá ao cuidado de examinar se suas afirmações são aceitas por todos como verdade, porque está certo de que aqueles que estão aptos para receber a verdade que ele ensina, reconhecê-la-ão intuitivamente; quanto aos outros, se não estão preparados para recebê-la, todo argumento será ineficaz.
Evidentemente, nunca tive a pretensão de possuir a verdade de um mestre no sentido transcendental. Apenas desejei apresentar argumentos claros, científicos e condizentes com a realidade, e isso se constitui no que chamo em termos pedagógicos, de verdade no ensino.
Entretanto, aproveitei a lição de Yogue e percebi que, mesmo as verdades relativas, baseadas em fenômenos óbvios e em leis científicas, não podem ser compreendidas por aqueles que não atingiram o grau de evolução mental necessário para recebê-las. Por isso, não deveria mais me atormentar, mas tentar ter paciência.
Estas constatações continuam intactas em mim, como intacto permanente permanece o pensamento de Max Weber, em A ciência como vocação. Recordemos, então, nem que seja uma frase do magistral texto para aprendermos ainda mais sobre a complexa tarefa pedagógica:
Na verdade, é certo que apresentar os problemas científicos de modo que uma mente não instruída, mas receptiva, os possa compreender e - o que para nós é decisivo - possa vir a refletir sobre eles de forma independente, talvez seja a tarefa pedagógica mais difícil de todas.
Sim, essa é uma das tarefas mais difíceis, que engloba atitudes tais como: ensinar sem impor dogmas, educar sem doutrinar, respeitar a opinião alheia. E quantos de nós conseguem isso, mesmo de uma maneira imperfeita?
Além do mais, a essa dificuldade essencial somam-se outras, peculiares ao tempo em que vivemos. É que nessa época de transformações rápidas, a própria pedagogia se modifica velozmente. E quantos de nós estão preparados para acompanhar o ritmo frenético das mudanças sociais, que englobam novos modos de pensar e agir? Como competir na sala de aula tão despojada de atrativos, com o frenesi da televisão, os encantos do consumo de massa, a sedução dos shopping centers, enfim, com todos esses pólos de atração que entretêm magicamente crianças, jovens e adultos?
Na verdade, romper com um certo obsoletismo que já envolve a figura do professor diante dos meios de comunicação, da informática e da cultura moderna, é hoje nosso grande desafio. E nossa grande indagação é a seguinte: até que ponto somos hoje necessários? Ou ainda: quais os ensinamentos clássicos, legados por incontáveis gerações anteriores, devemos preservar em meio à banalidade geral?
Para todos os nossos problemas, caros colegas, só existe a meu ver uma solução, a qual se resume numa palavra: criatividade. Somente através da criatividade não seremos esquecidos no Dia do Professor.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora universitária em Londrina


