O devedor
de promessas
Ex-ministro do governo Fernando Collor - declarado impedido com o voto do então senador e atual presidente Fernando Henrique Cardoso, de quem viria a ganhar nova pasta ministerial -, o titular do Ministério do Planejamento, deputado Antônio Kandir, tornou-se conhecido por fazer promessas e previsões, com extrema facilidade, mas que geralmente não se concretizam.
No currículo do ministro o que não falta são previsões falhas e promessas vãs, desde o tempo do governo Collor. Algumas delas, por sinal, deixavam, e deixam ainda, até mesmo os políticos situacionistas perplexos, no primeiro instante, e em dificuldades duradouras, posteriormente, por não terem como justificá-las.
Kandir garantia, antes da votação da proposta de emenda constitucional que daria a FHC o direito de tentar reeleger-se em 1998: ‘‘Se essa medida for aprovada pelo Congresso, o Brasil receberá bilhões de dólares, em investimentos externos.’
O Congresso aprovou a reeleição. Passou-se o ano de 1997 e esses bilhões não vieram. Pelo contrário. Em consequência da crise econômica dos tigres asiáticos, o Brasil perdeu, neste ano, cerca de US$ 10 bilhões de suas reservas cambiais. Apesar de resultado tão negativo, contrário às previsões de Kandir, os parlamentares recalcitrantes da maioria governista - que haviam comido gato por lebre - não tiveram como voltar atrás no caso da emenda reeleitoreira.
Longe de desanimar com mais este fiasco em sua carreira de adivinho, o ministro do Planejamento voltou, recentemente, a reincidir. Depois da assinatura do pacote governamental de 51 medidas, pelo presidente FHC, Kandir não só previu, mas quase jurou que o Brasil receberia, agora sim, nos próximos três anos, US$ 50 bilhões em investimentos externos.
Teremos, pois, de esperar mais de mil dias pelos resultados desse novo palpite ministerial. Para complicar sua situação, porém, as notícias vindas do exterior não são animadoras. O FMI anunciou que a economia mundial perderá ritmo em 1998 e, por isso, o desenvolvimento econômico de todos os países deverá ficar bem abaixo da média de 2%. Noutras palavras: faltarão dólares para investidas especulativas e projetos externos.
Mas nem isso abalou o espírito de aventuras nostradâmicas do ministro do Planejamento. No último domingo, ele voltou a enveredar por esse terreno, apesar de seus seguidos insucessos. Ao participar de um quadro no ‘‘Fantástico’’, na TV Globo, representando o papel de amigo oculto da animadora de um programa infanto-juvenil de auditório, o Dr. Kandir, sem turbante nem bola de cristal, foi taxativo: ‘‘O ano de 1998 será de novas conquistas!’’
Que conquistas o País fez em 1997? O número de desempregados subiu. Os trabalhadores passaram a temer a perda de seus empregos e muitos se submeteram a trabalhar com salários menores. Os servidores públicos civis estão com os vencimentos congelados há três anos. O salário mínimo aumentou apenas R$ 8,00. Aposentados e pensionistas não têm nenhum benefício há muito tempo. O custo dos serviços públicos está cada vez mais caro. Os juros dobraram. As dívidas externa e interna do Brasil continuam a crescer e o patrimônio nacional está cada vez menor. A poupança popular renderá menos. Conquistas? O brasileiro não pede tanto. Só não quer em 1998 ‘‘conquistas’’ iguais às de 1997. Façam-lhe esse favor!
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília
O colunista Ruy Fabiano está em licença.

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