Não é difícil compreender porque existem cada vez mais na massa votante brasileira os chamados eleitores de resultado, aqueles que estão sempre de olho nas realizações concretas dos políticos e são mais críticos com respeito a seus deslizes. Isto se deve a alguns fatores tais como: 1. Eleições seguidas, que acabam se convertendo numa espécie de escola da democracia; 2. Imprensa livre (ou relativamente livre) que municia o público com informações; 3. Inexistência de partidos políticos nacionais dotados de coerência interna, disciplina e programas consistentes; 4. Ausência de ideologias que possam nortear conjuntos de idéias e valores com relação a comportamentos políticos coletivos.
Tal situação gera um ciclo vicioso: de um lado o eleitor se torna cada vez mais de resultado, buscando na política aquilo que lhe seja imediatamente útil. Normalmente esta busca é mais individualizada e menos coletiva, e para a classe mais baixa vale uma dentadura, uma cadeira de rodas, uma passagem de ônibus, um caixão de defunto. Nas classes médias e altas, os benefícios comportam níveis mais sofisticados, de acordo com as necessidades.
De outro lado, os partidos se tornam cada vez mais pragmáticos, deixando de lado qualquer princípio ou ideologia para ir de encontro às aspirações e desejos concretos do eleitorado. O que interessa apenas é a vitória, e a maneira de obter votos para conseguir a vitória.
O pragmatismo partidário e a ausência de ideologia ficam visíveis quando, por exemplo, o governador petista do Distrito Federal, Cristóvam Buarque, propõe que a equipe econômica do atual presidente e candidato à reeleição, Fernando Henrique Cardoso, permaneça cem dias à frente do governo do PT caso Lula venham a ganhar. Na mesma linha de neutralidade ideológica, o coordenador da campanha de Fernando Henrique, Euclides Scalco, estranhamente admite que o programa de governo daquele adota idéias como bolsa-escola ou médico de família, que fazem parte da vitrine do governo de Cristóvam Buarque.
Esta pasteurização ideológica (ou bom-mocismo eleitoral de Buarque e Scalco) incita o eleitorado a buscar apenas o que lhe é útil, afastando-o de modo geral dos sonhos idealistas ou utópicos. O que importa é o presente, que no máximo pode se desdobrar num futuro imediato onde aspirações sejam satisfeitas. Nada de se sonhar com um futuro quimérico e longínquo, sem nenhuma certeza de realizações. Afinal, o homem da era eletrônica é guiado pela velocidade, pela pressa e pelo imediatismo. Vivemos um tempo em que as coisas se sucedem rapidamente, e isso se reflete também na política.
Estes fatos explicam porque há uma convergência para algo difusamente chamado de centro. As pessoas e os políticos preferem se dizer do centro. Raramente alguém afirma: ‘‘Sou de direita’’, ou ‘‘de extrema direita’’, ou ‘‘de esquerda’’, ou de ‘‘extrema esquerda’’. Normalmente se diz: ‘‘Sou de centro-direita’’, ou ‘‘de centro esquerda’’, o que não quer dizer nada exceto que se assume uma neutralidade cômoda, que em alguns casos pode camuflar uma antiga e enraizada ideologia como a daqueles militantes do velho Partidão (PCB) que agora desenvolvem atividades político-eleitorais em outros partidos que gostam de se caracterizar como de centro.
Em decorrência desses fenômenos exacerba-se o populismo, que em ciência política tem definições bastante vagas mas na versão corrente costuma ser associado acertadamente à demagogia. Especialmente na América Latina, o populismo é uma antiga doença infantil dos governantes, e tem infelicitado muitas nações, inclusive o Brasil.
Pois bem. Quando as ideologias murcham (notadamente as das esquerdas com o fim do socialismo), o populismo, que não chega a ser uma ideologia, floresce. Deste modo, partidos como o PT se tornam populistas. Assim, além da costumeira crítica pela crítica, o tri-candidato Lula promete. Vai instalar no País o Eldorado e colocar uma agência do Banco do Brasil em cada cidade. O PT anda confundindo o Banco do Brasil com as Casas Pernambucanas e abandonando a ideologia, que nunca foi muito clara, em favor do populismo. É o neopopulismo de esquerda.
Abaixo do nível da disputa presidencial, a miscelânea partidária prospera e o populismo segue em frente. No Paraná tem político que consegue navegar com um pé em cada canoa sem afundar. É o caso de Álvaro Dias, candidato do PSDB ao Senado, que esnoba o palanque de Fernando Henrique num evidente jogo de cena. E não deixa por menos Roberto Requião, candidato ao governo do Estado pelo PMDB, que liberou seus correligionários para apoiar o presidente.
Requião se justificou dizendo em entrevista à Folha dia 17: ‘‘É uma iniciativa pessoal que eu não posso impedir. Assim como o Lula e o Brizola não dispensam o apoio do prefeito de Londrina, Antonio Belinati (cuja esposa é vice de Lerner, que apóia Fernando Henrique), eu não dispenso de aliados que preferem o presidente’’.
De tudo se conclui que se a política tivesse um deus, esse seria bifronte. E são essas coisas espantosas que explicam porque existem eleitores de resultado.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga

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