O desperdício de alimentos
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sábado, 19 de outubro de 2002
Jocelem Mastrodi Salgado 
O Brasil joga na lata do lixo o equivalente a R$ 12 bilhões em alimentos por ano. Essa montanha de comida daria para alimentar cerca de 30 milhões de pessoas, ou oito milhões de famílias durante um ano inteiro.
O cálculo foi feito pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. O número já é conhecido dos políticos há algum tempo, mas não apareceu nas campanhas dos candidatos. O desperdício pode parecer um tema de menor visibilidade e menor atração quando comparado com a fome e o desemprego.
Todos os candidatos a presidente da República e a maioria dos candidatos aos governos dos Estados falaram nos 11 milhões de desempregados do País. Sem trabalho, nem salário, as famílias vivem no limiar da miséria.
Segundo estimativas da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação, a FAO, 10% dos brasileiros são desnutridos. Somam 17 milhões de pessoas que vivem com fome ou não comem o suficiente para manter a saúde. Dentro desse contingente, há mais de cinco milhões de crianças e idosos, os que mais sofrem com a desnutrição.
Esses números são chocantes e é natural que tenham sido usados pelos candidatos. No entanto, o gigantesco desperdício de alimentos também impressiona, justamente porque poderia contribuir para reduzir a fome. Mais ainda porque o desperdício é alguma coisa que poderia ser evitado, basta decisão e organização.
Vivemos numa sociedade acostumada ao desperdício, jogamos fora energia, bens de consumo, geladeira, tevês, roupas. Quanto mais rica e mais consumista a sociedade, mais ela desperdiça. A prática norte-americana de trocar seus bens a cada ano pode parecer compreensível porque seus cidadãos têm poder aquisitivo, podem estar comprando e assim alimentam o mercado, geram empregos e salários.
Mas quando falamos em alimentos que são jogados fora num país onde há fome e desnutrição, esse raciocínio é inaceitável. Seja quem for o vencedor dessas eleições, o tema precisa ser tratado com seriedade. Porque quando falamos em desperdício de alimentos, estamos falando em fome, em perda de dinheiro, em mau aproveitamento dos nossos recursos e dos nossos potenciais.
Só os supermercados jogam fora 13 milhões de toneladas de alimentos a cada ano. Mais de mil toneladas de produtos das feiras livres vão para o lixo a cada dia. Um quarto de tudo o que se produz em frutas, verduras e legumes no País é jogado fora. Se fossem recolhidas as sobras dos restaurantes e cozinhas industriais, seriam toneladas de alimentos. O que jogamos fora em nossas casas, somaria uma quantidade maior ainda.
Essa realidade faz com que numa mesma sociedade a fome e a desnutrição convivam com uma gigantesca sobra de alimentos. Um sistema gerenciado pelo Estado poderia fazer com que essa ''sobra de comida'' chegasse a quem tem fome. É isso o que vêm fazendo dezenas de organizações não-governamentais.
Uma das primeiras iniciativas surgiu de uma idéia do Betinho, em 1992, quando lançou uma campanha nacional contra a fome. Não era possível que um país de tantos recursos, com safras cada vez maiores, ainda abrigasse tanta gente passando fome, ele dizia.
Uma das iniciativas mais bem sucedidas é o Mesa São Paulo, do SESC Carmo, em São Paulo, criado em 1994. Hoje, uma equipe de profissionais treinados e com veículos percorre dezenas de empresas na cidade, recolhendo doações em alimento. São quase 40 mil pessoas atendidas em cerca de 200 instituições.
Outra iniciativa conhecida é a Associação Prato Cheio, surgida há dois anos e formada por universitários que passaram a recolher alimentos nos mercados da cidade. Em um ano, foram coletados mais de 30 mil quilos de alimentos, oferecidos a mais de mil moradores de rua, mães e crianças carentes.
Há dezenas de outras organizações da sociedade civil trabalhando das formas mais variadas para reduzir o desperdício e a fome em todo o País. Numa outra frente, o Conselho Regional de Nutricionistas dos Estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Paraná vem promovendo projetos e orientando nutricionistas de empresas e instituições a reduzirem as perdas de alimentos.
JOCELEM MASTRODI SALGADO é professora titular de Nutrição da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz- USP


