O desespero de um experimentado piloto
Todas as declarações de qualquer autoridade oficial sobre a condição técnica do aeroporto de Congonhas serão nada diante do que declarou um piloto com 16 mil horas de vôo: Fico desesperado quando tenho de pousar em Congonhas com chuva. Esta revelação foi publicada por este Jornal. Portanto, não são só os passageiros que temem, mas também os pilotos. Com estes, isto ocorre quando se defrontam com a situação citada pelo experimentado comandante a de ter de aterrissar no fatídico campo de pouso. Se este é o temor de um profissional desse nível, imagina-se que seja o mesmo de seus companheiros. Desabafos como este surgem em momentos de exaustão de uma situação, como a que resultou na tragédia do avião da TAM.
Assim, desconfia-se do teor da nota da Empresa Brasileira de Infra-
Estrutura Aeroportuária (a Infraero) afirmando que o aeroporto de Congonhas está funcionando em condições operacionais de excelência. Como a cidade de São Paulo é muito chuvosa, os gigantes Airbus continuarão operando ali, sem interrupção, porque a conclusão das obras da pista só irão começar em alguns dias, segundo a informação oficial. Devem estar esperando acontecer uma tragédia, com a morte de 180 passageiros, para aí reformar a pista. Esta surpreendente declaração foi feita pelo mesmo piloto, cinco meses antes do acidente de agora. Não foi uma vidência mas a previsão anunciada de alguém que sabia o que estava dizendo. E quanto ao número coincidente de passageiros, ele certamente baseava-se na capacidade daqueles grandes aviões. Mesmo a versão de uma possível falha mecânica no aparelho sinistrado não invalida a razão da afirmação de desespero do piloto.
Ao invés de admitir a própria incapacidade do sistema gerenciador da aviação civil, a Infraero ainda declara em sua nota que a certeza que nos transmitem os laudos técnicos de vários órgãos parceiros da operação no aeroporto de Congonhas, entre os quais a Agência Nacional de Aviação Civil e o Departamento Especial de Controle do Espaço Aéreo, permite-nos tranqüilizar a população, particularmente a da capital de São Paulo, sobre a qualidade de Congonhas. Naturalmente, versões oficiais de baixo teor de confiabilidade, já que partem de instituições que estão na mira da culpabilidade.
Se a pista é curta para aviões de grande porte, o sistema gerenciador permite que eles operem em Congonhas, então a possibilidade de mais acidentes é permanente. Festejar, como festejaram os assessores de Lula, pela possibilidade de falha nos freios do avião acidentado, não salva nada, porque dias antes já haviam acontecido derrapagens, e estas também não foram as únicas. Mesmo tendo ocorrido esse eventual defeito técnico, talvez não houvesse a tragédia se a pista fosse suficiente. Não há palavra mais confiável, no caso, que a de quem segura nos pulsos uma aeronave desse tamanho e sente o perigo iminente ao ter de pousá-la numa pista de baixa segurança. Se este fosse um país de homens públicos sérios, o reconhecimento da precariedade do sistema aeronáutico já teria ocorrido.





