Invariavelmente, o setor industrial tem sido responsabilizado pelo agravamento do desemprego no País. De fato, a indústria é um dos segmentos nos quais mais postos de trabalho têm sido sacrificados. No entanto, imputar-lhe culpa, julgando-a sumariamente, é uma atitude no mínimo injusta, pois há que se considerar o cenário em que o desemprego ocorre no Brasil.
Os especialistas explicam que o problema tem duas causas. A primeira é o fenômeno da globalização, que estabeleceu novos patamares de competitividade para as empresas. Por conta disso, elas lançam mão de todos os recursos possíveis para ganhar produtividade e reduzir custos (tecnologia da automação, ousados projetos de reengenharia e downsizing , até a demissão dos operários de chão de fábrica). À redução dos postos de trabalho resultante desse processo deu-se o nome de desemprego estrutural.
Em decorrência dessa busca compulsiva de competitividade, os trabalhadores de todo o Planeta têm enfrentado o fantasma do desemprego. Nos últimos anos, na grande maioria dos países, vem diminuindo o índice de emprego. A única exceção é representada pelos EUA, onde o problema existe com a migração de mão-de-obra os serviços, que têm absorvido parte dos desempregados de outros segmentos. Os norte-americanos também têm recorrido a uma inteligente política de captação de investimentos externos de pequeno e médio portes, oferecendo visto de permanência a quem estabelecer negócio no País, gerando um mínimo de 10 empregos para cidadãos locais.
Mas no Brasil, além da questão mundial, há o chamado desemprego conjuntural. A empresas tiveram de enfrentar o desafio de competitividade da globalização num cenário bastante adverso. Nos últimos oito anos, em que vivenciou o processo de abertura mercadológica mais radical de sua história, representado pela supressão e/ou redução de barreiras tarifárias e não-tarifárias, o País não teve a contrapartida de ajustes internos fundamentais.
A tarifa média de importação caiu de 52% para 12%. O Brasil ajustou sua política alfandegária às novas normas e exigências da economia mundial, mas não se preparou internamente para conviver com elas. O atraso das reformas, especialmente a tributária, a previdenciária e a do Estado, faz com que as reformas nacionais tenham de encarar as leis de mercado de uma economia aberta, limitadas pelas leis extemporâneas relativas ao recente passado de uma economia mais fechada. Há que se considerar, ainda, o anacronismo da legislação trabalhista, que, a despeito da recente introdução do contrato temporário, continua extremamente rígida, pouco flexível e absolutamente incompatível com as transformações da economia mundial.
Seria ingenuidade supor que um setor de atividades desempregue de maneira fortuita. Mais do que nunca, o empresariado brasileiro tem plena consciência do quanto é importante manter e gerar empregos. Quanto mais pessoas forem economicamente ativas, maior será o mercado para todos. Não bastasse essa relação meramente econômica, afloram no País, em consequência do amadurecimento do regime democrático, a consciência e a responsabilidade cívicas. E não é necessário ser um grande especialista em sociologia para constatar os nocivos efeitos da exclusão - suscitada pelo desemprego - no contexto da dívida social.
- MAX SCHRAPPE é industrial gráfico e dirigente classista em São Paulo

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