Professores encontram dificuldades em lidar com o aluno que não consegue aprender e dizem que ‘ele não aprende porque não quer aprender’’, ‘‘porque é preguiçoso’’, ‘‘porque é repetente e não acha mais graça em nada’’, e que acaba ocorrendo um movimento interno desse ensinante, que imobilizado frente ao problema acaba não sabendo lidar com a situação impedindo de realizar o seu próprio desejo que é ensinar, tornando-se impotente.
O conflito ocorre porque nem todas as crianças que vão para a escola querem aprender. Elas vão para a escola porque tem que aprender, mas muitas vezes, nem sabem para que irá servir essa aprendizagem. E muitas vezes esse aprender significa diferenciar-se de seu grupo familiar, um processo de desidentificação que pode ser doloroso; ser diferente do pai analfabeto, na imaginação dessa criança pode representar ser excluído como filho. A criança que não é notada, não pode sentir o desejo de aprender, porque não sente o desejo do professor em ensiná-la.
A escola desconsidera a sua experiência de vida e supervaloriza a condição social, que vem marcada pelo desemprego, alcoolismo e violência, que não são vivências adequadas para uma criança. Como diz Madalena Freire, ‘‘é através da fala do educador, no ensinar, no intervir, no desenvolver e no caminhar, que se expressa o seu desejo de ensinar, que ele lê e compreende, também, através do seu olhar’’, o que na prática muitos profissionais deixam a desejar. Muitas vezes não faz uma leitura psicopedagógica, reflexão e questionamento.
A escola pensa que transformar o sujeito em sujeito pensante é ensinar o que ela quer ensinar, o sujeito tem que desejar aprender para desenvolver seu potencial criativo e valorizando as experiências vividas pelo sujeito, e que demonstra não estar ocorrendo nas instituições escolares. Outro problema que ocorre são algumas classes especiais com mandato de não-aprender, onde se rotulam essas crianças e com a mínima chance de frequentarem classes regulares. Thomas Edison, inventor da lâmpada incandescente e da vitrola, entre outras coisas, estudou durante três meses e sua professora mandou-o embora, dizendo que era oligofrênico, que não tinha inteligência para os estudos. Ele parou de estudar. Mas hoje, quase tudo que nós fazemos depende direta ou indiretamente da descoberta de Thomas Edison.
É fundamental que a Psicopedagogia não ocupe esse mesmo espaço das classes especiais, onde vem expor os dito ‘‘incapazes’’. A Psicopedagogia tem que saber usar o seu conhecimento sem abusar do poder que o saber construído lhe oferece. A má qualidade do ensino provoca um desestímulo na busca do conhecimento. Não há, assim, um investimento do aluno, do ponto de vista emocional, na aprendizagem escolar, e este momento seria uma condição interna básica. E muitas vezes tal desinteresse é visto como um problema apenas do aluno, e não uma má condução do processo de ensino.
Todo diagnóstico psicopedagógico é, em si, uma investigação de ordem do conhecimento relacionado com o processo de aprendizagem. É uma pesquisa do que não vai bem com o sujeito em relação a uma conduta esperada. Será, portanto, o esclarecimento de uma queixa, do próprio sujeito, da família e, na maioria das vezes, da escola. No entanto, trata-se do não-aprender, do aprender com dificuldade ou lentamente, do não revelar o que aprendeu, do fugir de situações de possível aprendizagem. Enfim, levar o indivíduo a sentir-se capaz de aprender e ter sentimento de competência e auxiliá-lo a buscar conscientemente o seu próprio processo de raciocínio.
A educação não é uma transmissão do conhecimento, de um saber ou até mesmo de uma conduta, mas sobretudo uma iniciação à vida, onde ocorrem as primeiras interações com um meio mais amplo (natureza e cultura), um dos espaços onde o ser começa a viver com os primeiros elementos simbólicos, um espaço onde será completada a sua gestação para que possa enfrentar e assimilar o contexto sócio-cultural. Educar é um processo através do qual o indivíduo pode ‘‘construir-se’’ como pessoa em termos de ser, e não de ter, ocupando o seu potencial do sentir e do pensar.
Para transformar a educação é preciso enfrentar, tirar o medo de desafiar o poder, não acreditar que seja uma utopia essa transformação, quem faz essa utopia somos nós profissionais da educação. E para ocorrer a transformação da ação é preciso que o sujeito ensinante e o aprendente resgatem o conhecer do desejo que humaniza, desejando conhecer cada vez mais, para construir diferentes saberes.

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