A violência dos policiais de Diadema, mostrada exaustivamente à nação inteira pela Rede Globo, diluiu-se e perdeu expressão diante da tamanha ira e do incontido desejo de punição revelados pelas pessoas, em todos os cantos do país. A violência desdobrou-se, pela combustão das mentes, a ponto de não se saber, a esta altura, quem mais brande cassetetes e revólveres e distribui chutes, tabefes e bofetadas.
A TV Globo, pela sorte de haver colhido, com exclusividade, tão valioso material informativo e documental, faz a festa. Desempenha seu papel. Tivesse esse filminho, digno de um ‘‘Oscar’’, sido divulgado por outra das redes brasileiras de tevê, e ninguém teria dado a mínima. Não é o fato que arrepia, porque já corriqueiro; é a força propagadora desse poder nacional que é a Rede Globo de Televisão.
Punição severa, é o que desejam todos. Para que se sacie a sede de vingança, algo atávico em nós. Poucos se importam com a busca de soluções sábias para este problema que é a truculência e o despreparo da polícia brasileira. Ora, o grau de violência dos policiais está no seu nível de cultura e espiritualidade. É do meio social que emana esta polícia. Um organismo policial tão ruim como o que temos (e que aceitamos que seja assim) não sobreviveria em meio a homens bons. Então, é porque encontra entre nós ambiente propício.
É preciso, sim, punir os culpados; é preciso criar uma nova polícia, buscando homens no meio acadêmico, e ainda assim mediante seletivo recrutamento. Uma fórmula indicada, inclusive por renomados juristas, é entregar o comando da polícia ao Poder Judiciário e pagando a esses agentes da lei, da ordem e da segurança, salários condizentes. Já ensinou Maquiavel que do soldo do guarda depende o sono do príncipe.
Mas a violência, neste país, só está na polícia? Não. A violência, não mostrada em filminho nem de amador e nem de profissional - até porque não constitui novidade e já nos habituamos - está nos governos corrompidos; está nos políticos que retardam a discussão e a aprovação de reformas tão imprescindíveis para a vida nacional, só o fazendo mediante polpudas barganhas. A violência está na indústria da seca do Nordeste; na depredação da floresta amazônica, ante o olhar passivo e complacente dos 250 mil homens das nossas Forças Armadas, com todo o poder de fogo de seus F-15, de seus helicópteros e de seus fuzis, mas que, não se sabe a razão, não se ocupam desta que é uma importante questão de segurança nacional. Violência é o abandono aos excluídos que esmolam e assaltam pelas ruas. É a nação sustentar milhões de burocratas com seus carimbos e seu descaso.
Não é dos policiais truculentos a violência maior, mas é do banco que cobra de 15% a 18% de juros pelos nossos débitos e moras, quando a inflação oficial é de 1 dígito. A violência está na Justiça que constrói palácios faraônicos de 170 milhões de reais, enquanto os processos de grandes e pequenas causas, pelos fóruns do Brasil, se arrastam anos a fora, sem solução, até que caduquem e morram as partes. A violência está no INSS, que, conscientemente, deixa que processos reivindicatórios de infelizes aposentados, gente idosa, pobre, doente, inválida, se estendam insolúveis por uma dezena de anos, ou mais, até que pereça o reivindicante, enquanto tantos recebem milionárias aposentadorias ilícitas. Isto sim é violência. A violência está no empregado que vai à Justiça do Trabalho reclamar direitos que não tem, e violência maior é destes juízes trabalhistas durões e implacáveis, que se comprazem em aplicar punições tão severas contra os empregadores a ponto de levá-los à falência, ademais gerando desemprego, pelo temor que semeiam entre empresários necessitados de empregar. Se o empresário é mau patrão, então também aí reside a violência.
A violência não está apenas nos policiais de Diadema ou de Ibiporã, Londrina, Curitiba, da capital paulista, do Rio de Janeiro. Está nos programas de saúde governamentais e também nos planos de saúde particulares, porque enganosos a certa altura do atendimento, quando lhe informam que ‘‘isto o plano não cobre’’. A violência está no motorista que voa a 80 quilômetros por hora nas cidades; no que arrebenta os tímpanos dos cidadãos com seus escapamentos superabertos; está no poder público negligente que mantém sistemas viários caóticos, nas ruas e estradas, esburacadas, mal sinalizadas e gerando acidentes e mortes. A violência está na cobrança absurda de impostos e na má aplicação do dinheiro arrecadado. Está nos que fumam em recintos fechados e nos obrigam a tragar a fumaça que eles já engoliram e a devolvem impregnada de bactérias orgânicas. A violência está nos filmes da tevê, nos jornais e naqueles jornalistas que se deleitam com o escândalo, com os retratos da brutalidade e da desgraça alheia. A violência está nestes arautos dos templos pregando mais o temor a Satanás que o amor a Deus, acusando a todos de pecadores e deixando-nos crer que somos filhos das trevas. Não ensinam nem o perdão e nem a gratidão.
Violência é a competição demolidora num país que tem o suficiente para todos. Violência é a enganação que pontifica em quase tudo nesta pátria amada!
Então, nada se salva?! Tudo se salva. Se começarmos, antes de mais nada, a nos melhorarmos, extirpando o componente de violência que existe em cada um de nós.

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