Pensar criticamente nos dias de hoje nos coloca numa esfera de sujeitos que elaboram os construtos do amanhã, estes, sabemos que não estão prontos e acabados, pelo contrário, saber que não saberemos o todo que nos aguarda é um fundamento para criarmos as condições de produção do conhecimento necessário em nosso tempo.

Dos desafios postos, compete entender o jogo de interesses, narrativas e visões que aparecem a todo o momento, nas mídias digitais, na imprensa e nas rodas de conversas. No geral distorcendo, com meias verdades, ou simplesmente disseminando mentiras, em relação a qualquer aproximação factível.

Nesse tabuleiro de interpretações e narrativas, construir e desenvolver um pensamento crítico implica, antes de tudo, numa responsabilidade ética, uma leitura profunda da realidade em seus mais diversos componentes, tentando relacioná-los, associá-los, interpretá-los, avaliá-los. Nessa tarefa exige coragem para enfrentar o desconforto, que o resultado dessas interpretações causa, e aprendermos a convivemos com esta condição: sermos geradores de desconforto, sempre que utilizarmos instrumentos analíticos que possibilitam analisar algo que se esconde nas manifestações externas, para produzir aproximações com a essência fenomenológica dos fatos que circulam as realidades. Estas se constituem, antes de qualquer coisa, construções que estabelecem o entendimento das contradições e complexidades que expressam essa modernidade líquida a que vivemos nesta alta modernidade.

Exige método, leitura, disposição, concentração para aprofundar as explicações implícitas e explícitas, objetivas e subjetivas que toda carga analítica carrega. O mundo, tal como ele se apresenta, é mais complexo que as narrativas, os recortes e os fragmentos apresentados.

Essa postura nos torna responsáveis pelas palavras e entendimentos que emitimos acerca dos contextos. Não criamos essas análises para agradar esse ou aquele grupo e, sim para encontrar as melhores manifestações científicas possíveis acerca do que se está analisando. Talvez sejamos caminhantes de possíveis interpretações, onde tentar encontrar aproximações de verdades, sem as certezas e as simplificações presentes no mundo da alienação.

Por isso, nosso empenho em preparar, formar, educar pessoas que possam transitar diante deste espírito, que consideramos absolutamente necessário, aos seres humanos críticos e conscientes deste mundo. Um tipo de mundo que aumenta o número de pessoas alfabetizadas, letradas, para atender o entendimento de modos de vida tal como nos apresentam, porém necessitamos ir adiante.

Compreendemos que o que fazemos, com o que sabemos, é uma decisão ética, e decisão de uma cidadania emancipada. Como exemplo entende-se que a vida moderna submete os condicionamentos próprios tornando a natureza subserviente às suas vontades, através de um modelo criador de desejos e necessidades. O primeiro, o que alimenta seu crescente modelo de desenvolvimento, o segundo que condiciona a necessidades reais e novas necessidades estimuladas por uma sociedade de consumo.

A teia da modernidade não é a mesma Teia da Vida. Há uma distonia evidente e crescente entre a lógica do mercado com a lógica da natureza. Na construção da modernidade/capitalista há um distanciamento entre vida humana moderna e natureza. Essa concepção de vida foi descrita e estimulada pelos mais diferentes autores, entre o quais Francis Bacon e René Descartes, os quais fundamentam a ciência moderna como orientadora e construtora dessa feição.

Construir uma civilidade ecológica é um dos grandes desafios para as próximas décadas. Um caminho norteado pelos princípios e valores da sustentabilidade, para atingir a qualidade de vida de seres pensantes com alto teor democrático, associada à preservação ambiental. Desta forma podemos dizer, como entendemos, interpretamos e vivemos o mundo, é um esforço contínuo no sentido de munirmos adequadamente de nossas relações teórico/práticas e, fazer desses entendimentos roteiro para navegarmos num espaço crítico, ético e civilizatório.

Paulo Bassani é cientista social CRC/E-LETRO, membro da Equipe Gestora do Núcleo de Cooperação Socioambiental Norte do Paraná –Itaipu/Parquetec

mockup