O desafio do desenvolvimento - Ciro Gomes
O desafio do desenvolvimento
Ciro Gomes
Amargando as consequências previsíveis de sua conduta desastrosa no governo, mais uma vez o senhor presidente da República reproduz uma retórica de que agora é a hora de desenvolver o País e gerar empregos. Como se desenvolvimento e emprego fossem produto de voluntarismo ou conversa fiada. Pior, como se para desenvolver um país complexo e heterogêneo como o Brasil, em meio a um constrangimento internacional sofisticado, bastasse uma troca de seis por meia dúzia num ministério chinfrim, com poucas exceções.
Emprego e desenvolvimento só acontecem se uma equação implacável for cumprida e, apesar do truísmo, vale lembrar os elementos dessa equação, em meio a um debate mistificador de parte a parte: só há emprego se a economia crescer, a economia só cresce se houver investimento, só há investimento se houver poupança, se houver, principalmente no caso brasileiro, instituições que vinculem essa poupança à produção.
E aqui está o nó criminoso no qual essa quadra de governo mergulhou o País: a população apta ao trabalho cresce a uma razão de 1,7% ao ano. Forçada a modernizar-se, nossa economia vem ganhando produtividade a uma razão média de 3% ao ano. Tudo isso desemprega. Para ganhar, portanto, a corrida do emprego, o País precisa ser posto a crescer a uma razão não inferior a 5,5% ao ano. E até os gansos dos jardins do Palácio da Alvorada sabem que o País está decrescendo a uma razão não menor que 1% negativo este ano. E, para o ano, fora da conversa fiada oficial e do otimismo incauto e desinformado dos círculos oficiais do empresariado, da política e da grande mídia, nada permite a sério visualizar uma taxa mais consistente de crescimento. Por quê?
A razão nos remete à equação poupança-investimento-crescimento: em números grossos, este ano Brasil concluirá com uma taxa interna de poupança próxima de modestos 15% do PIB, ou seja, findo o ano teremos consumido 85% de tudo o que produzimos. O governo está praticando um déficit em suas contas próximo de explosivos 12% do PIB no conceito nominal, que é o único que realmente interessa se não tolerarmos a inflação de volta. Ou seja, a poupança do setor público é fortemente negativa e, por causa disso, o governo tem que praticar juros cronicamente altos para drenar o que resta de poupança privada para o financiamento de seu rombo. É assim, juro é preço de dinheiro; com a reduzida emissão monetária para controle da inflação, há pouco dinheiro na praça.
Os alienados do governo então saem com a conversa mole de que seremos salvos do desastre pelo investimento estrangeiro e confundem a opinião pública com as estatísticas de inversões estrangeiras recentes no País. O que não dizem é que essa inversão deriva basicamente de duas fontes finitas, próximas da exaustão, ambas: a venda a preço de galinha morta de nosso patrimônio público (vale repetir: a Telebrás valia US$ 42 bilhões e essa gente a vendeu por US$ 22 bilhões e, ainda, por cima, criminosamente aceitou receber com três anos de antecipação, e em reais, uma dívida em dólar, quando, na esteira da desvalorização atabalhoada, o dólar bateu na casa de R$ 2,21) e a venda de empresas brasileiras sufocadas aqui dentro, com deságio de até um terço de seu verdadeiro valor. Investimento direto, de risco e em novos empreendimentos, muito pouco, e ainda com a escandalosa outorga de dinheiro público, como é o caso recente da Ford.
Ainda para refletir, uma observação empírica demonstra que a taxa de investimento de risco por estrangeiros realiza-se basicamente em suas praças de origem e a parte menor, que migra, vai em direção a países que detêm um alto nível interno de poupança. Ou seja, também para aspirar investimentos internacionais verdadeiros na expansão do desenvolvimento brasileiro, de novo a equação de poupança é vital.
O nível interno de poupança, portanto, é a chave para darmos conteúdo concreto à necessidade vital de desenvolvermos o País a uma condição de desenvolvimento sustentável e o nível de poupança de um país não é obra do acaso, mas sim consequência de arranjos institucionais que a política faz ou deixa de fazer. Por enquanto, a obra deste governo foi levar o País à falência: dívida interna a R$ 400 bilhões (era de R$ 61 bilhões quando começaram), dívida externa de US$ 234 bilhões (era de US$ 135 bilhões quando começaram), liquidação de um patrimônio acumulado em 50 anos de história (valia o equivalente a duas dívidas quando começaram).
Como elevar o nível interno de poupança e vinculá-la ao investimento que produz empregos: este é o debate que falta. A esta tarefa deveríamos todos estar entregues e não à demagogia mistificadora do governo ou à retórica radical da goela de frações da oposição.
- CIRO GOMES é ex-ministro da Fazenda





