O desafio da energia
Embora o conhecimento sobre a importância até estratégica do domínio energético pelas nações seja antigo como a própria História, é certo que em muitas nações – Brasil, inclusive – esta questão raramente foi formulada ao longo dos tempos. Havia alguns que insistiam na necessidade de se buscar fontes energéticas próprias e alertavam sobre o risco da dependência, mas eram poucos e quase sempre considerados alarmistas. Neste século, quase todo dominado pelo petróleo, o País se deixou ficar como dependente do produto externo e parecia viver bem com isso. Chegou-se ao cúmulo, em certa época, de se afirmar que o Brasil não tinha petróleo. Depois, quando se provou a mentira desta idéia, outra imediatamente a substituiu: o petróleo brasileiro era muito mais caro, não valia a pena explorá-lo, melhor e mais fácil era importá-lo. Afinal, o petróleo árabe, principalmente, era barato e, ao que parecia, inesgotável.
Foi então que, nos anos 70, na crista de um movimento dos maiores produtores, aconteceu o chamado choque de petróleo. Os exportadores do produto perceberam a força do que tinham em mãos, uniram-se, criaram a OPEP e quadruplicaram os preços. O Ocidente, quase todo dependente do petróleo árabe, se abalou. E o Brasil, que vivia um período de excelentes perspectivas de desenvolvimento, sofreu o impacto terrível da alta tremenda nos valores de um produto que era vital e que vinha quase todo do exterior.
É certo que só então se percebeu como qualquer país depende da energia que usa e do seu domínio. E, como ocorre muitas vezes, foi em meio à crise que o Brasil encontrou novos caminhos. Percebeu-se que havia imensas e não exploradas possibilidades para fugir à dependência e não só resolver o problema real que surgiu, mas encontrar alternativas capazes de garantir ao País o suprimento de energia de que necessitava para superar o estágio de subdesenvolvimento em que vivia. Surgiu o Proálcool, sem dúvida uma das mais importantes iniciativas na busca de energia segura, não poluente, renovável e, o que era mais importante, nacional. Também foi a época em que se passou a investir em energia hidrelétrica, usando o potencial brasileiro ainda não explorado. Igualmente se passou a prospectar petróleo, encontrando-se importantes bacias, a ponto de o País dominar hoje a melhor tecnologia mundial em exploração no alto-mar. E não se pode esquecer as pesquisas sobre o uso da energia solar e da eólica, fontes fantásticas e seguras para garantir a auto-suficiência no campo vital da produção energética.
Infelizmente, não foram levados a cabo os melhores programas. O Proálcool foi quase abandonado. No campo das hidrelétricas, o País avançou mas está hoje quase no auge da exploração delas e precisa de outras fontes. E não é só o Brasil. Reportagem publicada na edição de ontem desta Folha deixa clara a situação, destacando as novas ameaças de esgotamento da energia não renovável e mostrando a necessidade de se investir na busca das soluções que a própria natureza oferece. É o desafio que se impõe ao mundo, como assinala o título da reportagem, mas, e principalmente, ao Brasil.
Há novas e antigas idéias. A exploração da biomassa, o que surge da exploração da energia solar renovável, é vital e plenamente possível no Brasil. O uso da energia eólica já está se tornando uma realidade. Também se pode usar diretamente a energia do Sol. E há todo o potencial do álcool, capaz de garantir a substituição dos derivados de petróleo e, adicionalmente, de produzir uma revolução social positiva no país. O que se precisa mesmo é de uma política efetiva para garantir fontes de energia que tornarão possível o grande salto do país rumo ao papel de potência mundial que o novo milênio lhe reserva.

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