Há acontecimentos imprevisíveis e inevitáveis, notadamente na área da natureza. Não se pode evitar um terremoto, um tufão. Assim também em outras esferas, quando uma série de circunstâncias se unem para produzir tragédias que, muitas vezes, ceifam milhares de vidas. Diante de tais possibilidades, os seres humanos, usando sua inteligência, adotam providências possíveis: em locais sujeitos a fenômenos naturais de intensidade, constroem casas com fundações mais resistentes, diante de outros problemas buscam alternativas.
Durante milênios, questões de saúde também se revelavam devastadoras. Epidemias chegaram a matar milhões de pessoas. Entretanto, também (e em alguns casos com preferência) também neste setor a capacidade humana se revelou produtiva. Hoje, uma série de doenças que causou morte ao longo dos tempos já está sob controle. Vacinas evitam que males terríveis, como a poliomielite, o tétano, a difteria, continuem a matar ou inutilizar seres humanos. Em consequência dessa evolução e, principalmente, com a preocupação cada vez maior das coletividades no sentido de prevenir males que antes assolavam os países e os povos em todo o mundo, programas de vacinação intensa chegam a erradicar muitos males, caso específico da poliomielite, no Brasil.
Naturalmente, essa evolução leva a uma constatação: é inaceitável que hoje, em um país que se diz civilizado, alguém morra vítima do tétano, da difteria, da coqueluche, da pólio, entre outros males. Seria possível dizer que, em verdade, até mesmo a morte por desnutrição, em um país de terra tão fértil quanto o Brasil, também constitui um evento inconcebível. Entretanto, neste caso há o componente social muito sério, um enorme obstáculo embora pareça muito claro que se houvesse vontade política para uma ação plena no combate à fome, também esta batalha poderia estar sendo vencida.
De qualquer modo, houve enorme avanço no Brasil na luta para prevenir doenças e para melhorar a qualidade de vida do povo. Mas essa batalha deveria também atingir outros setores, como o do saneamento básico. Efetivamente, diante do avanço da tecnologia, é inconcebível que um Estado como o Paraná, considerado dos mais evoluídos do país, chamado de ‘primeiro mundo’, possa ser palco de uma epidemia de cólera, como a que se registra em Paranaguá. É tão chocante esta revelação que, inclusive, demorou para o Governo do Estado reconhecer a realidade. Foi preciso que viesse ao Estado uma sanitarista do Ministério da Saúde para confirmar o que se percebia: no momento, o Paraná enfrenta uma epidemia de cólera.
O mais grave é que este tipo de situação decorre de uma falha tremenda do poder público, pois, como esclareceu a especialista do Ministério da Saúde, a solução para enfrentar esse desafio é que haja investimentos maciços em saneamento. Esta revelação, na verdade, não chega a surpreender. O saneamento básico faz parte das necessidades fundamentais para que se ofereça à população uma qualidade de vida melhor. Constitui, mesmo, fator determinante para que se superem muitos problemas, inclusive a cólera. O que é lamentável é que se tente fugir do fato. Diante de uma epidemia, não adianta fazer a política do avestruz, negar a realidade. É vital reconhecê-la e enfrentá-la com coragem e disposição. E neste, como em alguns outros casos específicos - como o da segurança pública - não se admitem desculpas relacionadas à falta de recursos. É preciso investir mesmo, com eficiência e rapidez, transformando a luta contra a cólera em um combate de interesse estadual. É o mínimo que se pode exigir de um Estado que se diz tão desenvolvido como o Paraná.

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