O desafio da alfabetização
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 06 de julho de 2018
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 

Atingir as principais metas do PNE (Plano Nacional de Educação), que prevê entre outros temas a alfabetização de todas as crianças brasileiras ao final do terceiro ano até 2024, será um grande desafio aos gestores da área. Quem afirma isso é o ministro da Educação, Rossieli Soares da Silva, que cumpriu agenda em Londrina e concedeu entrevista à FOLHA no início da semana.
A reportagem apresentou a Silva algumas conclusões do evento EncontrosFolha, realizado pelo Grupo FOLHA, que em sua última edição tratou dos avanços e retrocessos na área de educação. Pesquisas apresentadas pelos participantes do evento mostram, por exemplo, que 54,73% dos estudantes brasileiros acima dos 8 anos estão em níveis insuficientes de leitura, 33,95% não atingiram os níveis de escrita e 54,4% não atingiram os níveis de matemática. Outra constatação é que 60% dos alunos do quinto ano não aprenderam o adequado em português e matemática e, no nono ano, 73% dos alunos não aprenderam o adequado em português e 83% em matemática. Além disso, 84% dos jovens de 15 a 17 estão matriculados na escola, mas só 59% terminam o ensino médio aos 19 anos.
O ministro admitiu os problemas, mas adiantou que o MEC (Ministério da Educação) tem investido em programas para solucioná-los. "É uma discussão que o Brasil precisa enfrentar", disse.
O Ministério da Educação anunciou mudanças no Saeb (Sistema de Avaliação Básica). Qual a motivação?
Pela primeira vez, a partir da Base Nacional Comum Curricular que aponta o que os alunos devem aprender, faremos avaliações de ciências da natureza e ciências humanas, além de matemática e língua portuguesa. Também vamos começar a avaliar a qualidade da educação infantil. Outra novidade é o processo que vem após, a alfabetização, que não será mais ao final do terceiro ano, mas sim ao final do segundo ano.
De que forma essa mudança pode colaborar para o cumprimento da quinta meta do PNE, que prevê que todas as crianças estejam alfabetizadas ao final do terceiro ano até 2024? Sabemos que muitas crianças ainda saem do terceiro ano sem saber ler, escrever e calcular.
Na verdade, a alfabetização ainda está muito ruim no Brasil. Temos um grande desafio, pois mais da metade das crianças não estão alfabetizadas ao final do terceiro ano, quando grande parte delas têm 9 anos. As crianças que estão em escolas particulares estão sendo alfabetizadas no primeiro ano do ensino fundamental. Para que a gente dê um futuro melhor para os jovens, para que tudo que o conhecimento pode trazer se abra para eles, é preciso cuidar da base, olhar para a educação infantil e também para a alfabetização. O governo lançou o Mais Alfabetização, um programa que procura dar suporte ao professor dentro da sala de aula. A Base Nacional Comum Curricular, pela primeira vez, diz o que a criança deve aprender em cada ano e em que ponto ela deve estar, por isso a avaliação tem sido feita. As boas práticas no Brasil, como é o caso do Ceará, incluem a avaliação no segundo ano porque preveem a alfabetização nesta fase, ou seja, não empurram para frente, evitando que chegue ao final do terceiro ano com crianças que ainda não estão alfabetizadas. Quando falamos que as crianças não estão alfabetizadas, queremos dizer que 33% das crianças com 9 anos, no Brasil, não conseguem escrever a palavra "porco" ao verem a imagem de um porquinho na prova. Ou seja, estamos muito longe do que precisamos, o esforço do Brasil precisa ser concentrado na alfabetização e estamos buscando olhar para todas as dimensões: formação de professores, avaliação, apontamentos da Base Nacional Comum Curricular e o Mais Alfabetização.
O senhor acha que, diante desse cenário, será possível cumprir a meta que prevê 100% das crianças alfabetizadas ao final do terceiro ano?
Nós esperamos que o Brasil cresça muito rapidamente, mas não creio em 100%. É possível chegar próximo, como estamos chegando em outros indicadores, se a gente mantiver o ritmo que estamos mantendo agora até 2024, com olhar para todas as dimensões: formação de professores, apoio ao professor na sala de aula com assistente de alfabetização uma inovação que está ocorrendo em 2018 e o próprio modelo de acompanhamento que estamos propondo às escolas.
Há uma discussão sobre a reforma do ensino médio porque essa etapa não é atrativa aos jovens. Vai ser possível cumprir, até 2024, a meta de garantir pelo menos 85% de jovens até 17 anos matriculados no ensino médio? E garantir que atinjam os níveis de proficiência previstos para esta fase?
O ensino médio é o grande desafio brasileiro e ele precisa mudar. Quando os especialistas debateram o assunto na Folha de Londrina, certamente trouxeram a dificuldade de atrair e se conectar com o jovem. O ensino médio é uma fase de grande evasão escolar. Entram 3,5 milhões de jovens nesta etapa todos os anos e saem 1,8 milhão, ou seja, perdemos metade dos alunos ao longo do caminho. Sem contar uma grande parte que nem tenta entrar porque não vê sentido na escola para a própria vida. A reforma do ensino médio foi uma resposta a isso. O debate não é de agora, vem de 2007, com a publicação de livros pela Câmara dos Deputados sobre a necessidade de flexibilização. O novo ensino médio, com carga horária de 3.000 horas em vez de 2.400 horas, passou a ser obrigatório. Agora, é previsto que os conteúdos apontados pela base comum devem ser dados a todos os alunos do Brasil, mas tem uma parte que precisa ser contextualizada para cada região, levando em conta o desenvolvimento local. Pela primeira vez, teremos a oportunidade de colocar o ensino técnico dentro de uma carga horaria regular, com oportunidade de trabalho e estágio. A reforma olha para essas duas coisas, mas são só decisões macro. O que vai ser dado aos jovens com o novo ensino médio precisa ser discutido pela comunidade local. O currículo, os conteúdos, a parte flexível, tudo isso precisa ser conversado com os jovens de cada cidade, observando as vocações da comunidade onde inseridos.
Essas discussões têm avançado?
Tenho viajado pelo Brasil e visto boas experiências em relação ao ensino médio. As pessoas perguntam qual será o professor que vai dar aula com a flexibilização... É o mesmo professor de filosofia, sociologia, português, matemática ou história, mas ele vai dar aulas flexíveis, ou seja, ele planeja de modo diferente. Recentemente visitei uma escola no Mato Grosso do Sul e, conversando com alguns alunos, vi que um deles desenhava muito bem. A escola tem disciplinas eletivas e os alunos podem escolher o que fazer, o que é bom para a escola e para o jovem, que tem acesso a um processo mais criativo. Ele estava desenhando em uma disciplina sobre arte de Frida Khalo, que não era ministrada pela professora de arte, mas sim pela professora de química. Me surpreendi com a resposta e ele explicou que professora pede primeiro que peguem fuligem nos canos de descarga dos carros dos professores e com isso ensina o processo químico envolvido na fabricação de tinta. A partir disso, ensina a história da Frida Kahlo e, ao final, com arte, cultura em conjunto com química, avalia os alunos através da arte feita com a tinta fabricada com a fuligem. Ou seja, é uma professora que já estava na escola e que, com a liberdade que lhe foi dada, pode criar junto com os alunos. É possível alterar o currículo implementando aulas diferentes, flexíveis, que o aluno possa escolher, com o desenvolvimento de competências socioemocionais.
Em relação à formação de professores, a palestrante Cláudia Costin defendeu no evento EncontrosFolha que as crianças brasileiras estão quase todas na escola, mas não aprendem. E que por isso é preciso investir no ensino de didática e ensinar o professor a atuar. Para ela, essa é a maior necessidade da educação brasileira atual, o senhor concorda?
O professor é central dentro da educação e especialmente na educação básica. Nós temos uma série de desafios e ela tem razão quando fala que a formação de professores é um deles. Por exemplo, falamos da importância da educação infantil, tivemos um crescimento grande dessa modalidade, mas muitas universidades não têm nenhuma disciplina falando sobre educação infantil. A culpa não é do professor, mas do sistema que não tem dado uma boa formação para ele. Discutir a formação inicial, o papel do professor, é muito importante. Tem coisas que deveriam ser comuns a todos os professores durante a formação e não estamos conseguindo oferecer isso enquanto país. O MEC, neste sentido, investe muito em formação prática. Estamos priorizando a formação de pares, ou seja, bons professores, com grandes práticas, formando os colegas através da troca de experiências. Criamos o programa de residência pedagógica, que busca induzir a prática efetiva de estudantes de graduação na sala de aula. Ao final do curso, ele vai para a sala de aula aprender. Universidades inclusive já fizeram adesões e o programa começa a funcionar a partir de 1º de agosto. Algo importante que o MEC fará esse ano é o lançamento da base nacional comum de formação de professores. Assim como estabelecemos onde queremos chegar com alunos do Brasil inteiro, estabelecemos a necessidade de ter uma definição nacional que será discutida com toda sociedade sobre a formação dos professores. Vocês falaram no debate sobre a metodologia, o que todos os cursos devem ter. Apontar isso para o Brasil é importante e está na hora de enfrentarmos esse debate. Não vai ser simples e não será em um prazo curto, mas vamos iniciar a discussão da base. Esperamos que o Brasil continue a discussão em 2019 para termos até 2020 esse referencial para formação dos professores.
E em relação à valorização da carreira?
Nós debatemos o reajuste do piso nacional, mas as carreiras na educação básica são definidas pelos municípios e estados. Porém, a valorização do professor não é só salário apesar de ser muito importante - , mas também formação, e nisso o MEC pode entrar. Pela primeira vez estamos ofertando mestrado profissional em todas as áreas de conhecimento, estamos ofertando mestrado em sociologia e filosofia. Também estamos ofertando mestrados pensando na metodologia, na educação infantil e áreas como alfabetização. Isso está sendo pensado para professores exclusivamente em sala de aula, isso é colocado como obrigatório, para apoiar o nosso professor.


