O número de pessoas que morrem por causa do vírus da Aids ‘‘está aumentando em todos os lugares’’, afirma um informe da ONU sobre esta doença responsável pela morte de 11,7 milhões de pessoas e que atinge atualmente mais de 30 milhões, e que foi divulgado na semana passada. Segundo o informe da ONUAids, que reúne as agências das Nações Unidas que cuidam da questão da epidemia, o vírus HIV, origem da Aids, é uma das dez maiores causas de mortalidade na atualidade, e, considerando-se os índices atuais, logo poderá ficar entre as cinco primeiras. O vírus continua se propagando, causando todos os dias 16.000 novos casos de infecção no mundo e, no ano passado, essa progressão resultou em 5,8 milhões de novos casos de infecção. Existem atualmente 30,6 milhões de portadores do vírus, ‘‘cuja grande maioria vai morrer nos dez anos que se seguem à infecção, a menos que se amplie o acesso aos tratamentos’’, advertiu o informe.
O diretor da organização, Peter Piot, estima que a propagação do vírus se estabiliza e até diminui onde existe uma boa prevenção, mas atinge índices inimagináveis em grande parte dos países em vias de desenvolvimento. Às vésperas do 12º Congresso Mundial da Aids, que será inaugurado hoje, em Genebra, Piot julga esta diferença preocupante, e a atribuiu particularmente a um acesso desigual aos anti-retrovirais, acessíveis há dois anos nos países ricos. ‘‘Na realidade, 89% das pessoas infectadas pelo HIV vivem na África subsaariana e nos países em vias de desenvolvimento da Ásia, zonas que representam menos de um décimo do PIB mundial’’, segundo a ONUAids.
Na África subsaariana, 21 milhões de pessoas viviam com o HIV/Aids no ano passado, enquanto eram 210.000 na África do Norte e no Oriente Médio.
Quando, porém, se aborda o drama em termos mundiais e se sabe que a maioria absoluta das pessoas infectadas pelo HIV vive na África subsaariana e nos países subdesenvolvidos da Ásia, a primeira reação é a de um certo desinteresse. Entretanto, o problema não está tão distante. Segundo um relatório divulgado pelo Ministério da Saúde, no dia 19, a incidência da Aids na região Sul do Brasil subiu de 1,9 caso por grupo de 100 mil habitantes, em 1989, para 11,5 casos no biênio 1997/98. São números que, no mínimo, devem provocar não só preocupação mas, conforme assinalam entidades voltadas para a questão, ação imediata, incluindo uma reavaliação do que vem sendo feito no sentido de conter o mal e tentar evitar sua propagação.
O que se percebe facilmente diante destes números é que toda a campanha que vem se realizando no sentido de alertar sobre os riscos de contaminação ainda parece insuficiente. Afinal, esta elevação no total de casos da Aids na região considerada das mais desenvolvidas do País indica claramente que alguma coisa está errada, que é preciso que o trabalho de orientação e esclarecimento sobre a Aids, inclusive sobre como se pode ser contaminado, seja feito ainda de modo mais drástico.
Os números, muitas vezes, acabam sendo mal-interpretados. E não revelam a realidade que deve ser enfocada: cada número representa uma pessoa, uma vida. Conter a Aids não é um desafio empírico, assim como não são apenas, como alguns ainda insistem em considerar, viciados ou homossexuais as vítimas potenciais deste mal. A síndrome está em toda parte, atinge a todos, indistintamente, viciados ou não, homo ou heterossexuais. É um desafio vital que deve ser encarado sem preconceitos e com total coragem. É o ponto de partida para se conseguir, de fato, enfrentar e vencer este que é considerado o grande mal deste fim de século.

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