Entre os dias 25 e 27 de junho, o mundo assistiu à redefinição das estratégias que guiam a resposta global aos desafios impostos pela Aids. De Nova York, a Assembléia Geral das Nações Unidas definiu o novo ordenamento internacional para a epidemia. Compartilhando a mesma plenária, governos, movimentos sociais, empresas, ONGs e especialistas definiram os rumos do debate internacional sobre o tema. Durante esses dois dias, a participação da delegação brasileira teve destaque.
O impacto da Aids durante os últimos anos tem sido devastador. Até o final do ano 2000, mais de 36 milhões de pessoas no mundo estavam vivendo com Aids ou com o vírus da doença. Quase 22 milhões tinham morrido desde o surgimento da epidemia. Apenas no ano passado, 3 milhões de pessoas morreram de causas relacionadas à Aids e mais de 5 milhões eram recém-infectadas.
Pela primeira vez na história, um assunto tradicionalmente tratado pelas pastas da saúde pública passou ao primeiro plano da segurança internacional. Ao reconhecer, em 1999, que a Aids constitui uma ameaça à paz entre os povos, o Conselho de Segurança das Nações Unidas sugeria que o avanço da epidemia resultaria num círculo de doença, pauperização, violência e, eventualmente, guerra. Em países como o Brasil, onde a doença não chega a constituir uma calamidade pública, o vírus do HIV já afeta a mais de 500 mil pessoas.
De forma geral, os debates que aconteceram em Nova York se concentraram na necessidade de gerar recursos de grande escala para a manutenção de políticas antiaids no mundo subdesenvolvido e em desenvolvimento, e nos mecanismos mais eficazes para conter a epidemia. Uma das propostas que geraram vívidas discussões entre os delegados foi a criação de um fundo internacional para o combate à Aids. Mas somente discursos não serão o bastante diante de um quadro que se agrava dia a dia. Os países que já perderam milhares de pessoas em consequência da epidemia têm suas estruturas econômicas afetadas pela perda da população economicamente ativa.
Contudo, dinheiro não basta. Em muitos países do mundo, e até mesmo em certas regiões do Brasil, as comunidades locais não contam com conhecimentos essenciais sobre práticas e atitudes preventivas. O mesmo acontece junto à juventude dos grandes centros urbanos de muitos países desenvolvidos: apesar de as campanhas de informação serem bem-sucedidas, muitos indivíduos relutam em adotar a camisinha em seu cotidiano, e muitos outros ainda compartilham seringas durante o consumo de drogas ilegais, anabolizantes etc.
A educação preventiva deve ser parte integrante de uma política de educação para todos, podendo ser compreendida como um recurso mobilizador para a mudança de atitudes, conhecimentos e práticas, como, aliás, afirma o diretor- geral da Unesco, Koichiro Matsuura: ‘‘A principal causa da dramática disseminação do HIV e da Aids é a falta de conhecimento. Uma vez que o tratamento não traz a cura completa e o tratamento que pode trazer melhora ainda é muito dispendioso para grande parte da população mundial, a prevenção por meio da educação, seguida de ação, é o melhor remédio. A educação preventiva deve integrar o objetivo da educação para todos. O que se perde, ao não se implementar agora uma educação preventiva de fato, marcará o mundo inteiro por todo o resto deste novo século.’’
É nesse quadro amplo de preocupações que a experiência brasileira de combate à Aids ganha notoriedade internacional. Articulando estruturas governamentais, sociedade civil e agências internacionais, a resposta brasileira à Aids vem dando provas concretas de que é possível encontrar saídas criativas e eficientes. O acesso universal e gratuito a medicamentos, por exemplo, tem contribuído para a estabilização da curva de mortalidade por Aids no Brasil. Além disso, constitui uma prova de responsabilidade social, ao reduzir drasticamente os custos que o Estado tem com o tratamento de seus pacientes. De forma complementar, a política preventiva vem mobilizando inúmeras entidades em todo o País, gerando um sentimento de co-responsabilidade que é essencial ao seu sucesso. Os desafios ainda são muitos, mas as bases estão dadas.
A flexibilidade da política brasileira para a Aids, a sua preocupação com a inclusão da sociedade civil organizada na definição de caminhos e a mobilização social que essas entidades têm promovido garantiram ao Brasil a posição de interlocutor autorizado durante os debates de Nova York. Portanto, é de suma importância a atenção de todos sobre esses debates e a manifestação de opiniões e a apresentação de sugestões que os enriqueçam. A luta não terminou.
- JORGE WERTHEIN, do Rio de Janeiro, é representante da Unesco no Brasil

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