Apesar dos bons resultados econômicos dos últimos dias, com o dólar caindo, as Bolsas subindo e algumas previsões otimistas em relação ao futuro, as próprias autoridades brasileiras (incluindo o presidente Fernando Henrique Cardoso) fazem questão de reduzir uma eventual euforia, assinalando que a situação brasileira continua difícil, reclamando assim que se continue com os pés no chão. Esta também é a opinião de renomados especialistas, como Gail Fosler, economista-chefe da The Conference Board, associação que agrupa as 200 maiores corporações dos Estados Unidos, que destacou que apesar da recente redução das taxas de juros internas, os problemas da economia brasileira provavelmente vão piorar e a recessão se estenderá até 2000. Os problemas do Brasil são difíceis de resolver devido a uma dívida pública superior a 25% do PIB, principalmente de vencimento a curto prazo, com uma carga de serviço agravada pelas altas taxas de juros internas, e um déficit fiscal total que passa de 7% do PIB, indicou Fosler numa análise publicada numa revista interna da associação.
Nesta onda de aparentes sucessos, após toda a crise de janeiro, o governo brasileiro informou ter obtido um superávit primário (sem incluir o serviço da dívida) de 1.555 bilhão de dólares, equivalentes a 2% do PIB, no período janeiro-fevereiro. Gail Fosler enfatizou, entretanto, que, incluindo as amortizações e pagamentos de juros, o déficit fiscal brasileiro subiu a 7,5% do PIB em 1998, em comparação com 3,9% em 1996. A economista ressaltou que o Brasil ‘‘é um exemplo moderno da regra das ineficiências econômicas dinâmicas, segundo a qual quando as taxas reais de juros excedem as taxas reais de crescimento de uma economia, os crescentes custos de juros fazem com que o déficit e a dívida caiam numa espiral fora de controle’’. Fosler previu que a economia brasileira declinará entre 3 e 4% em 1999, e a contração provavelmente se estenderá até o ano 2000, mas a recessão será menos severa do que a do México em 1995, após a queda do peso. Esta opinião é sustentada pelo fato de que a redução da atividade industrial foi relativamente moderada, indicou. Disse também que a desvalorização do real está seguindo o padrão das desvalorizações em outros mercados emergentes, onde as divisas geralmente caíram aproximadamente 45% de seu valor prévio antes de se recuperar e se estabilizar em um nível sustentável.
Importa também observar que parte desta mudança, notadamente a repentina valorização do real frente ao dólar, decorre do fluxo do famoso capital especulativo que entra e sai ao sabor do interesse dos grandes investidores que têm uma única preocupação, seus próprios lucros. Jogam com as cotações, forçando baixas ou determinando altas apenas para atender aos interesses particulares. Neste contexto, é importante observar a lucidez das autoridades econômicas, que não apenas não se deixam iludir mas buscam alertar o mercado e o País para a realidade que é simples: o Brasil ainda continua enfrentando sérias dificuldades e não vai sair delas por mágica.
O que se tem de fazer é manter a firmeza em todas as frentes. Reduzir o déficit público ainda é o desafio mais urgente para o Governo. Estimular a atividade produtiva, inclusive como meio para recuperar as reservas, através do melhor desempenho das exportações, é outra exigência. Independente dos resultados aparentes (como a queda mais ou menos inesperada das cotações do dólar), o que se faz necessário é persistir nas linhas que vêm sendo adotadas, com a sequência das reformas, a redução dos juros, o trabalho sério, saídas únicas para um país que precisa resolver, através de seus próprios esforços, os grandes desafios com que se defronta.

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