O desafio agrícola (Editorial)
EditorialO desafio agrícola
A alta nos preços do arroz e do feijão, verificada nos últimos dias, deixa evidente que o Brasil está, de fato, vivendo nova fase em sua economia: há escassez dos dois produtos e, como resultado natural, o preço sobe. O mesmo ocorreu há algum tempo com o óleo de soja, que subiu porque havia mais procura que oferta no mercado. Com o aumento da oferta, em função do início da moagem de soja, o preço voltou aos patamares anteriores. Não há dúvida que este fato por si representa evolução positiva no quadro econômico e dá também a convicção de que o aumento de agora não é permanente e que os preços tanto de um como de outro produto (ambos de enorme peso na cesta básica do povo brasileiro) vão baixar tão logo o mercado se regularize.
Todavia, estes fatos não estão merecendo a atenção devida das autoridades no que deveria ser fundamental: o Brasil, um país de enorme território, de condições climáticas fantásticas, onde, como já escreveu Pero Vaz Caminha há quase 500 anos, em se plantando, tudo dá, não deveria estar enfrentando este tipo de dificuldade. Pode faltar muita coisa, menos o produto da agricultura. O Brasil pode ter de importar uma série imensa de utilidades, menos alimento. Todavia, esta não é a realidade. Para evitar uma explosão nos preços do feijão, o Governo já está cogitando de importar o produto. O mesmo pode acontecer em relação ao arroz. E tantos outros produtos agrícolas, em relação aos quais o país deveria ser auto-suficiente, também figuram na pauta de importações. Quando se sabe dos sucessivos déficits da balança comercial, é fácil perceber que o prejuízo causado pela necessidade de importação de produtos que poderíamos ter aqui é muito maior do que se supõe.
O mais grave ainda é perceber que os problemas agrícolas não merecem muita atenção dos governantes brasileiros. Na campanha presidencial de 1990, quando o Brasil voltou a eleger o presidente pelo voto direto, depois de 30 anos, o candidato eleito, Fernando Collor de Mello, falou de muita coisa, menos da agricultura. Nas eleições seguintes, deu-se o mesmo: Fernando Henrique Cardoso elegeu-se no primeiro turno tendo como base o sucesso do Plano Real, do qual foi mentor, mas sem anunciar um posicionamento a respeito da agricultura. Na verdade, o Brasil, historicamente, foge de sua vocação agrícola, sem perceber que é este potencial que representa a solução para todos os problemas nacionais, desde o da fome ao do emprego, passando também pelas questões do comércio.
A atual campanha presidencial, que já começou ainda que não oficialmente, mostra algo semelhante. O presidente, que pode se candidatar a um novo mandato, fala do plano de estabilização da economia; o até agora mais forte candidato da oposição, Luiz Inácio Lula da Silva, contesta a política econômica, incluindo aí a privatização das estatais, mas também não se mostra muito interessado na política agrícola. O mais perto que se passa disto, no meio político, é quando se discute a reforma agrária, que é importante, mas que, sem efetiva diretriz de apoio ao produtor não leva a parte alguma.
Se o Brasil simplesmente se voltasse para a produção, apoiando a agricultura, dando condições aos grandes, médios, pequenos e microprodutores de plantar, colher e comercializar, todos os outros problemas nacionais seriam resolvidos como consequência. O campo dá emprego, o campo produz comida para quem planta, para os moradores da cidade, para exportação. O Brasil pode alimentar os brasileiros e o mundo, mas é preciso que haja uma política concreta que permita que este objetivo seja atingido.





