O (des) prazer de aprender... e ensinar
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 12 de março de 1997
Carlos Alberto Rodrigues Alves 
O mestre nasce da exuberância da alegria
Jefferson, dez anos, candidato a cidadão curitibano, é um desses amigos do meu filho, cujo prazer maior está no fim das tardes de sextas-feiras, quando vamos à praça jogar futebol. Perguntei-lhe, impertinentemente, certa vez, sobre suas experiências de alegria em sua escola. Alegria, como todos sabem, não é uma das palavras mais cultuadas dentro dos politburos pedagógicos. Os personagens que frequentam estes redutos de verdades cristalizadas preferem, em nome da ciência, o linguajar impessoal, as citações de notas de rodapé e os jargões fossilizados. Por outro lado, é (ou deveria ser!) marca registrada de uma criança que quer viver.
Indaguei o nosso amiguinho porque quis ver uma radiografia retratada sob a lente de quem, na linguagem educacional, é um dos protagonistas do que se costuma dizer processo ensino/aprendizagem. O guri, craque de bola, pareceu-me cheio de vontade de aprender como toda criança. Falou-me, acaloradamente, sobre as suas muitas amizades e sobre as cumplicidades com seus companheiros de classe. Gastou um bom tempo para me falar, em tom de confidência, sobre os namoricos furtivos com as meninas mais bonitas. Empolgou-se quando narrou suas aventuras na hora de recreio... mas, quando insisti no cenário da sala de aula, seus olhos não mantiveram o mesmo brilho. Na verdade, teve pouquíssimas referências à alegria de estudar, compreender e fazer suas lições.
Com essa história real, que vivencio tantas vezes, reaprendo cada vez mais o milenar ensinamento de que é possível visualizar um projeto de educação que se abstenha da categoria revolucionária da alegria. Só para citar um caso: em seu livro A alegria de ensinar, Rubem Alves conta de um pai, amigo seu, que ficou deveras impressionado com o sorriso do seu filho voltando da escola. Já conformado com as notas baixas que o filho trazia, num belo dia viu o garoto exibir para toda a família um triunfante conceito A na difícil disciplina de literatura. O velho quis certificar o segredo do sucesso e, ao abrir a prova feita, compreendeu o porquê do grande êxito. O tema da redação sobre o qual o filho tinha feito suas pertinentes variações era: Porque odeio minha escola. Quem me dera ver os nossos alunos tirando conceito A pelo trabalho redacional que versasse sobre seu prazer de estudar.
Sei que meus adversários vão argumentar com os imprescindíveis valores da racionalidade, da eficiência e da produtividade. Citarão os filósofos gregos que afirmavam não haver estrada pavimentada para o conhecimento. Invocarão teóricos que suaram em prisões para deixar suas teorizações à humanidade. Não se trata de descartar a radicalidade e os rigores da ciência! Mas há que se resgatar a experiência de quem, como Guimarães Rosa, sabe que mestre não é só quem ensina, é quem, de repente, aprende. Por isso mesmo vale refletir: será que nossas melhores reminiscências dos bancos escolares não estão justamente associadas àquele professor ou àquela professora cuja disciplina nos foi trabalhada com saber especial? Por outro lado, quem não tem pelo menos uma disciplina em desafeto pelo motivo desta despertar um sofrimento vivido em sala de aula?
Sejamos honestos! Que dificuldade amar as matérias representadas por rostos e vozes que expressam azedume, insensibilidade e descontextualização! Que sacrifício nossas crianças tentarem fazer um périplo por paisagens cujas informações não contribuem para sua real formação! Que maçante nossos filhos geração-globalcibernetizada suportarem aulas que não despertam sua criatividade, não lhes desafiam seus instintos de águia e nem lhes encorajam os olhos amedrontados!...
O educador Neidson Rodrigues chega a ser cruel quando aponta o fato de muitas de nossas escolas despertarem em nossos alunos apenas e tão-somente as habilidades da tartaruga: o medo, a retração e a acomodação. Que estamos fazendo com o que de mais rico eles têm? A abertura para o novo, a liberdade de poder se expressar, o potencial adormecido, sua relação de eroticidade para com o mundo... Rubem Azevedo não é menos enfático. Em um original artigo ele compara muitas de nossas escolas com o Geppetto da história de Pinóquio. Só que, para piorar as coisas, às avessas! Na história literária que contamos para a criançada, Pinóquio é um boneco-de-pau que só terá direito a se transformar em gente de carne-e-osso quando obedecer, cegamente, seu tutor. Na história real nossas crianças são gente de carne-e-osso que depois de passar pelos bancos escolares se transformam em bonecos-de-pau.
Vivemos tempos em que, lentamente, o país está se despertando para a tão falada e pouco vivenciada prioridade da educação. É preciso reconhecer avanços: o Fundo de Valorização do Magistério, que, esperamos, resgate um pouco a dignidade profissional e social do professor; os parâmetros curriculares nacionais, que deverão democratizar os conteúdos a nível nacional, os projetos educacionais em todas as esferas, governamentais ou não, que estão deixando de ser mais que promessas de palanque, as demandas e articulações de empresariado com o ensino básico ou com a educação profissional, o nível de escolarização de nossa mão-de-obra diante dos desafios do Mercosul; a não-perfeita mas pertinente nova LDB e assim por diante... claro, há que se enfatizar com radicalidade cada vez mais contundente a valorização do professor. Porém os educadores precisam se sentir desafiados para pensar, além dos gabinetes educacionais, com os neurônios e com os poros-da-paixão, sobre o prazer de aprender nesse espaço sagrado do conhecimento que é escola.
Volto à minha história inicial. Jefferson, nosso amiguinho, é hábil com a bola nos pés. Seus dribles leves me fazem pensar nele como um aprendiz-de-garrincha. Porém, este craque, pareceu-me com extrema dificuldade de carregar o peso de conhecimentos mortos que não consegue integrar a sua vida de aprendiz-de-alegria. Daí meu pedido a sua escola: por favor não deixe morrer em seu rosto sua viva vontade de viver e ser feliz...


