O decoro foi para o espaço


Fernando José Dias da Silva
As virgens do Congresso estão perplexas. Como é que dois gigantes da democracia como o presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães, e o presidente do PMDB, Jader Barbalho, podem falar aquilo que falaram na frente de todo mundo? Chamaram-se de corruptos, ladrões, sem caráter, mentirosos, puseram, inclusive, a Nicéa Pitta no meio.
Chocadíssimas, as virgens do Congresso se sentiram ultrajadas. Reviraram os olhinhos. Só faltou fazer o Nome do Pai. Consideraram o episódio lamentável, uma tristeza para a imagem do Legislativo, dos seus integrantes, dos políticos em geral. As virgens perguntavam: ‘‘O que vão dizer de nós?’’ A imagem do Congresso foi por água abaixo. Nunca o nível foi tão rasteiro.
Bobagem pura e simples. Primeiro não existem virgens que frequentam esses ambientes. Até aquele azul quase violeta do carpete do Senado sugere coisas mais mundanas. Menos elevadas, menos castas do que as supostas virgens, falsas virgens, querem fazer crer. Depois, o nível continua o mesmo. O Congresso nunca foi mosteiro e nem convênio. Basta lembrar da figura do senador Eurico Rezende e seu inseparável charuto que rolava pela boca enquanto ele fazia pouco da oposição. Ou então do agitado deputado Zezinho Bonifácio que fazia qualquer micagem para defender o governo autoritário. Figuras como essas aconteceram no Parlamento antes e depois da chamada ‘‘Redentora’’.
Não é novidade para ninguém, talvez só para as falsas virgens, que dois instrumentos de grande serventia naquelas Casas são o talão de cheques – às vezes substituído pelo dinheiro vivo – e a arma de fogo. São inúmeros os exemplos. Não faz muito tempo, o atual senador Ronaldo Cunha Lima entrou no Restaurante Gulliver, em João Pessoa, e disparou contra o rosto do ex-governador Tarcísio Buriti. Isso na hora do almoço, à luz do dia. Ameaças então são feitas por grosa.
Mais comum até, o outro instrumental para convencimento rola solto. As pessoas que acompanharam as votações que mudaram as leis para permitir as privatizações e a reeleição sabem disso e contam o que um talão de cheques ou um pacote de dinheiro são capazes de fazer.
Mas talvez em um detalhe as semivirgens do Congresso estejam certas. É com relação à linguagem. Ela decaiu. Está na altura do rodapé. Afinal existem maneiras e maneiras de chamar o sujeito de canalha. Os parlamentares apesar de se tratarem por ‘‘excelência’’ não estão usando o vocabulário da academia, um fato explicável: nós vivemos no tempo do neogrotesco.
Palavras, procedimentos, atitudes, tudo sob medida para colocar em evidência o que há de mais grosseiro o que há de mais torpe. Aí os políticos não são desbravadores, seguem a linha da propaganda, do novo jornalismo de mercado, das novas tendências de comportamento que são descobertas pelos sábios que tem espaço naquelas revistas lidas por cabeleireiras.
O decoro foi para o espaço. O decoro parlamentar e o do dia-a-dia. E há quem diga que a corrupção venceu também em todos os níveis. Por isso não há mais motivo para ficar escandalizado. O escândalo não existe. Nunca existiu.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em Brasília

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