O debate que não houve
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terça-feira, 03 de setembro de 2002
Nilson Monteiro 
A gana com que Ciro Gomes e Garotinho voltaram seus canhões contra José Serra no debate da última segunda-feira, na TV Record, é explicável. Ciro, de parceiros políticos indesejáveis a qualquer pessoa de bem, tem Serra nos calcanhares, ameaçando, segundo as pesquisas, deixar-lhe pó para comida. E Garotinho é um camelô da política. Mas, Lula, pelo passado de lutas, por sua contribuição à democracia e pelo seu usufruto deste mesmo regime, pela coerência demonstrada em outras oportunidades, inclusive como mentor do PT, não merecia servir de escada a Garotinho e Ciro. Não poderia (e não deveria) ser coadjuvante de um jogo de cena grosseiro, reacionário, que nada acrescenta aos eleitores, a não ser escancarar o provável temor do enfrentamento do trio com o ''candidato do governo'' em eventual segundo turno. Ao contrário da lata de doce três em um, Lula serviu de condimento em uma lata de ácido de três contra um.
Obcecado pelo poder, que lhe parece mais perto do que nunca, Lula, que já foi referência de orgulho político de uma parcela significativa do País, mostrou-se tão desnudo de educação e autenticidade quanto a dupla de artilheiros armada para atacar governo e nem um pouco preparada para propor uma nação mais competente e limpa.
Aliás, o debate, sempre desejável e necessário, foi uma mostra, na Record, de um despreparo ímpar. A começar pelo apresentador, Bóris Casoy, que, do ponto de vista estritamente jornalístico (friso: estritamente jornalístico), esteve à deriva da vontade do quarteto de presidenciáveis, em nome de um pretenso julgamento democrático, que lhe permitiu, inclusive, gracinhas perfeitamente dispensáveis. O direito de resposta, sem bússola, parecia mais desnorteado do que os que concedidos a torto e a direito em cansativos debates estudantis.
Se a troca de gentilezas e ''tabelinhas'' entre Lula, Ciro e Garotinho foi uma constante da primeira à última intervenção no debate, as acusações e agressões dos três ao governo Fernando Henrique Cardoso, despejadas sistematicamente contra Serra, também o foram. Óbvio que Serra, saído do governo atual, seria, e é até natural, alvo de críticas da oposição. Nada de surpreendente ou deplorável. O curioso, porém, foi a troca-troca de ''escadas'' entre Lula, Ciro e Garotinho, como se entre eles o programa televisivo fosse apenas a oferta de ''ponto'', como se diz na linguagem teatral, ou bola erguida, como no dialeto futebolístico.
Serra, em debate, expiou a culpa pelo sacrilégio de ter feito parte de um governo que, capengando ou não, com, às vezes, mais defeitos do que virtudes, respaldou a democracia, debilitando velhos bruxos do atraso, arquiinimigos de qualquer sopro evolutivo e que estão de plantão, sempre à direita dos poderosos, para servir e ser servido, sem quaisquer critérios. Nada demais se dardos e bardos antiprogresso viessem dos sabotadores e aproveitadores de sempre. Mas, do Lula... Talvez agarrado às lições de Duda Mendonça, o mago de Paulo Maluf, um eterno perdedor, Lula comportou-se, no debate, como um anti-Lula.
A Serra, talvez movido pela timidez e/ou ingenuidade política, faltou escorar os ataques metendo o dedo na ferida. Serra não disse a Lula, que insistiu na ''indecência'' do acordo recente com o FMI, que, como Ciro, ele também endossara o acordo. E também não disse que a dívida externa (e suas pavorosas consequências) é uma das heranças dos desmandos políticos e econômicos dos governos militares, que Lula, aliás, acaba de elogiar. Assim como são heranças deste período o aumento da concentração de renda, da inflação, da exclusão de milhões de pessoas do mercado de consumo e da intervenção estatal na economia.
Serra não lembrou a Lula, que insistiu na dependência do candidato tucano às asas de Fernando Henrique Cardoso, seu recente agarrão ao fardão de José Sarney, um dos oligarcas mais empedernidos do País, que tem em suas bordas Jorge Murad e companhia, e em cujo governo o Brasil atingiu recordes inflacionários. E, igualmente, não refutou a crítica de Lula em relação à utilização de artistas em sua campanha, como se esta participação fosse ilegal ou imoral. Tanto não é que inúmeros artistas, usando de seu legítimo direito, apoiam, de forma absolutamente natural, a candidatura Lula.
Serra, por outro lado, também não reconheceu, claramente, exemplos saudáveis de administração e de ética petistas, que merecem ser absorvidos, admitidos e/ou copiados por qualquer homem público, independente de coloração partidária ou ideológica. Bendita, sim, a existência do PT, talvez o único entre as agremiações políticas que merece a chancela de partido, e o combustível que ele fornece à democracia, deveria dizer Serra. Serra não declarou a Lula que o candidato petista é um mentiroso, pois, felizmente, ele realmente não o é. Mas, tampouco, afirmou que Lula foi cínico. E ele foi.
NILSON MONTEIRO é jornalista em Curitiba


