Debates políticos são válidos apenas para observar a capacidade de comunicação dos candidatos. Nada mais. O debate envolvendo os quatro principais candidatos à Presidência da República, realizado, no último domingo, na TV Bandeirantes, não fugiu à regra. Foi bem interessante e se revela um instrumento para verificação menos das propostas de governo do que da psicologia dos concorrentes. Quem ganhou? Ganhar aqui significa quem foi melhor percebido pela opinião pública e conseguiu convencê-la pelo discurso.
Se eu tivesse que declarar um vencedor, eu diria que foi Ciro Gomes. Mostrou-se mais desenvolto, mais seguro, seu improviso não parecia nada improvisado: treinou bem. Lula também não foi mal, mas penso que o seu destaque é não ter escorregado no discurso. Para um observador mais atento, ficou claro que o seu floreio de números era uma mera casca, a esconder a sua ignorância sobre os temas abordados. Sua superficialidade me pareceu gritante.
Garotinho entrou no debate como o palhaço entra no circo. Foi grotesco. Mostrou-se um franco-atirador descompromissado, sem alguma pretensão maior. À pergunta que lhe fizeram sobre o Índice de Gini revelou, em resposta, a sua crassa ignorância sobre questões econômicas. Foi patético. Está fora do páreo.
José Serra, por sua vez, foi a expressão da insegurança, transmitindo a hesitação típica de quem se sabe assediado pela derrota. Cometeu três erros gravíssimos do ponto de vista da comunicação de massa. Primeiro, ele negou que seja o candidato do governo, para depois voltar atrás; segundo, foi o mais agressivo dos debatedores, ofendendo especialmente Ciro Gomes sucessivas vezes; por fim, o maior de todos os erros foi não ter respondido a pergunta de Ciro Gomes sobre os destinos dos recursos das privatizações e do endividamento público crescente. Pareceu-me uma fuga desnecessária, que, aos olhos do público, pode ter tido uma conotação muito negativa.
Serra pode ter perdido preciosos pontos na intenção de votos, o que não me surpreenderia. Votar nele é o mesmo que referendar o governo FHC e os seus erros, é endossar a política econômica suicida que está posta em prática e aceitar a lógica socialista de administração que imprimiu aos negócios do Estado. Seria um continuísmo injustificado.
Foi notável o ato falho do candidato ao dizer que lutava conta a ditadura que ''aí está''. Tem praticamente 20 anos que o ciclo militar foi concluído, e ele ainda mantém esse discurso, para uma população que está cada vez mais saudosa daqueles tempos, que passaram a ser bons tempos. Merece perder, por tudo isso. Se, nas próximas aparições públicas, Serra mantiver esse discurso defensivo, inconsistente e antipático, apenas antecipará o seu fracasso eleitoral. Será sem dúvida o mais novo cristianizado da história política brasileira.
NIVALDO CORDEIRO é economista e mestre em Administração de Empresas pela FGV - SP
[email protected]

mockup