O último relatório da Unctad sobre circulação de capital no mundo aponta para um crescimento continuado dos fluxos internacionais de capital para investimento direto. De 1997 para 98, o valor desses investimentos cresceu 38,7%. Nada demais até aí, já que a tendência do capitalismo nos nossos dias é a da internacionalização da produção, numa busca contínua pela redução de custos e consequente maximização dos lucros. O que surpreende é que o grosso dos investimentos diretos internacionais esteja hoje direcionado para operações de consolidação de posição em mercados – fusões e aquisições – e não para novos investimentos.
A tendência concentradora de capitais revelada no relatório se expressa também através da manutenção de altos índices de transferência entre países desenvolvidos. Cerca de 92% de todas as transferências internacionais de capital provêm de países desenvolvidos, especialmente dos EUA, e nada menos que 72% dos capitais são destinados para os mesmos países desenvolvidos. Há uma intensa troca de capitais entre os países da tríade EUA-Comunidade Européia-Japão, que, em valor absoluto, é muito mais significativa que as dos países desenvolvidos para os países em desenvolvimento e ainda mais significativas que as de países em desenvolvimento para outros países em desenvolvimento. Se excluirmos a China, que por seu enorme mercado interno tem atraído substanciais fatias de capital internacional, os fluxos direcionados para países em desenvolvimento se tornam ainda menos expressivos.
Este quadro se complementa com o crescimento vertiginoso das transferências de capital para viabilizar fusões e aquisições, em detrimento da disponibilidade de capitais para novos investimentos. Em 1997, a transferência internacional de capitais para fusões e aquisições somou US$ 236 bilhões e, em 1998, nada menos que US$ 411 bilhões, ou seja, houve um crescimento anual de 73,9%.
Olhando por outro ângulo, a maioria das transferências internacionais de capital para fusões e aquisições, em 1998, representaram 63,8% de todas as transferências internacionais de investimento direto realizadas, ocorreu em setores maduros, como energia, petróleo, química, ou em setores que demandam altos dispêndios em P&D, como o farmacêutico. Para manter a característica oligopolística que caracteriza o capitalismo em sua forma atual, globalizada, as empresas se tornaram maiores e diversificaram sua atuação no mercado.
As duas tendências acima apontadas são uma triste constatação para países em desenvolvimento que basearam suas estratégias de crescimento na atração de capitais internacionais: os maiores fluxos de transferência se dão entre países desenvolvidos e a maior parte destes fluxos não é direcionada a gerar novos investimentos e novos empregos, mas sim a gerar maiores lucros, via redução de custos de fatores de produção e oligopolização de mercados.
Os países que apostaram no desenvolvimento por via da internacionalização de suas economias, especialmente os que aceitaram o cavalo de Tróia do ideário neoliberal, estão amargando sérias desilusões. A condução de suas economias passou a ser ditada por interesses externos à sua realidade e seus interesses, as previsões de novos e vultosos investimentos capazes de gerar os empregos necessários para absorver o crescimento populacional vão se esvaindo, e o sonho de um rápido processo de avanço tecnológico não passou disto – um sonho. A correlação direta entre investimento externo e crescimento está longe de ser uma realidade, especialmente quando existe um gap educacional grande entre o país hospedeiro e a média dos países desenvolvidos.
A situação do Brasil é emblemática neste processo. Do final dos anos 80 em diante, adotamos o receituário neoliberal forjado em Washington, e isto nos serviu apenas para ver crescer a desnacionalização de nossa economia e assistir a degradação de nossos índices de justiça social. Nos últimos cinco anos, recebemos cerca de US$ 100 bilhões em investimentos diretos (os dados são do Banco Central), boa parte dos quais para especulação financeira explícita. O estoque de capitais externos beira os US$ 130 bilhões, controlando os setores mais dinâmicos e rentáveis de nossa economia.
Investimento novo? Nem pensar: 66% de todo capital estrangeiro que aportou ao Brasil no período 1995-1999 foi direcionado à aquisição de ativos existentes. Basta ver que a taxa global de formação de capital fixo pouco se expandiu no período. Em contrapartida, a participação estrangeira na formação desta taxa multiplicou-se por 6, dando a exata medida de como alienamos o nosso patrimônio em busca de um crescimento que não existiu. Vendemos patrimônio já amortizado e rentável, como, por exemplo, todo o nosso setor elétrico, e vamos ter que pagar por isto, pressionando nosso combalido balanço de pagamentos com remessas de lucros, royalties, pagamento de serviços técnicos e tudo o mais. O relatório da Unctad é um calhamaço indigesto de mais de 500 páginas, mas tem indicações importantes para a montagem de um modelo de ação econômica alternativo ao fracassado modelo em vigor.
- MARCOS OLIVEIRA é vice-presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Química Fina (Abifina) em São Paulo

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