O custo real de viver conectado
A Organização Mundial da Saúde ressalta que os efeitos das redes sobre o bem-estar não são iguais para todos: dependem do tipo e da intensidade do uso
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de novembro de 2026
A Organização Mundial da Saúde ressalta que os efeitos das redes sobre o bem-estar não são iguais para todos: dependem do tipo e da intensidade do uso
Abraham Shapiro 
O maior problema da vida atual não é acompanhar efeitos das eleições, impostos, governos ou conflitos. É entregar a essas pautas toda a atenção disponível, como se cada alerta exigisse a nossa reação imediata. Informar-se é preciso. Viver mergulhado no fluxo, porém, pode consumir tempo, desgastar a mente e expor a pessoa a julgamentos que ela não controla.
O tamanho do hábito merece atenção. Segundo estimativa publicada pela DataReportal, usuários de internet no Brasil passavam, em média, 3 horas e 37 minutos por dia nas redes sociais em 2024. É uma média, não a rotina de cada brasileiro, e mede uso autorrelatado. Ainda assim, ajuda a dimensionar o espaço ocupado por essas plataformas. Isso já deve ter mudado.
Três horas e meia não são automaticamente desperdiçadas. Alguém pode conversar com a família, estudar, divulgar um trabalho ou acompanhar uma notícia importante. A pergunta mais útil é outra: quanto desse tempo foi escolhido por você e quanto foi puxado por notificações, vídeos em sequência e discussões que não levam a uma decisão nem a uma ação concreta?
O custo aparece quando a consulta breve se transforma em hábito automático. A pessoa pega o celular sem saber o que procura e, minutos depois, passou por tragédias, brigas, acusações, terrorismo, guerras, publicidade e opiniões apresentadas como fatos. Isso fragmenta a atenção e pode alimentar preocupação ou irritação.
A Organização Mundial da Saúde ressalta que os efeitos das redes sobre o bem-estar não são iguais para todos: dependem do tipo e da intensidade do uso. O uso passivo pode estar mais associado a menor bem-estar. Usos moderados também podem trazer conexão e benefícios. A evidência é mista, então não cabe dizer que toda navegação adoece.
Há também um preço social. Ao comentar política, religião, guerra ou costumes em um espaço público, você não expõe apenas uma opinião: expõe o seu nome, o seu tom e, às vezes, fragmentos da sua identidade. Uma frase curta pode ser recortada, compartilhada sem contexto e interpretada pelo filtro de quem já discorda.
Em ambientes polarizados, leituras tendenciosas são comuns. A intenção original não garante que os outros a compreenderão como você esperava. O silêncio calculado, em certas ocasiões, protege mais do que uma resposta impulsiva.
O ambiente informativo amplia essa dificuldade. Visitei o Digital News Report de 2025. Encontrei lá pesquisa com pessoas de 48 mercados, 58% disseram preocupar-se com a capacidade de distinguir notícias verdadeiras de falsas na internet. Quatro em cada dez afirmaram que às vezes ou frequentemente evitam notícias. Esses números não provam que as redes sejam a única causa, mas indicam uma combinação de dúvida, cansaço e excesso de informação.
Por isso, a solução não é ignorar o que se encontra nas mídias via Internet. É escolher horários e fontes, verificar antes de compartilhar e sair de conversas que apenas repetem indignação. Desative alertas dispensáveis. Pergunte, antes de publicar: isso é verificável? É necessário? Estou disposto a responder pelas interpretações previsíveis?
Anote por uma semana o motivo e a duração de cada acesso. Registre como se sente ao sair. Se terminar irritado ou confuso, ajuste o hábito. O objetivo é recuperar escolha, não criar culpa e adoecer psicologicamente.
A internet pode informar, aproximar e ensinar. Mas não precisa ocupar cada intervalo nem transformar toda opinião em pronunciamento público. Proteja algumas horas para trabalhar, descansar, conversar e pensar sem uma tela convocando a sua atenção.
A vida não se torna irresponsável porque você deixa de acompanhar cada polêmica. Às vezes, a atitude mais lúcida é informar-se o suficiente para compreender o assunto e, depois, voltar ao que depende de você e a tudo sobre o que você tem controle real. Isso não é fugir do mundo. É impedir que o mundo inteiro, em versão de feed, administre a sua mente.
Abraham Shapiro, consultor de empresas


